O Criador é o mikveh,
e a purificação é o que acontece depois
O verso de Yoel pergunta quem terá o recipiente para conter um dia tão grande. Michael Berg responde com três presentes deste dia, e avisa que um deles é perigoso não carregar em consciência. A espinha do ensinamento é uma inversão: a purificação de Yom Kipur não é o trabalho. É a consequência. O trabalho é receber o abraço.
É natural entrar em Yom Kipur pensando que o dia é sobre se limpar. O Maharal de Praga desmonta essa ordem. Ele explica que hoje é o único dia do ano em que alcançamos devekut, união completa com a Luz do Criador. A purificação vem depois, e vem sozinha.
O mecanismo é simples. Quando alguém está completamente envolvido pela Luz do Criador, nenhuma negatividade consegue permanecer ali, porque a negatividade não subsiste onde a Luz do Criador reside. Ela sobrevive onde há pouca Luz. Ela sobrevive na Luz que nós mesmos revelamos. Não sobrevive nesta.
Por isso a pergunta de hoje não é o que eu preciso limpar. É eu estou deixando o abraço acontecer?
A aula começa num verso de Yoel que fala de Yom Kipur. O dia do Criador é grande, diz o verso, e é temível. E então faz a pergunta que organiza tudo o que vem depois.
Note o que a pergunta não está perguntando. Não é quem merece. Não é quem se comportou bem o bastante. É quem tem o recipiente. A Luz deste dia está disponível de qualquer forma. A questão inteira é a capacidade de recebê-la.
Yom Kipur é o aniversário da partida de Rav Akiva, e os kabalistas ensinam que os ensinamentos de uma grande alma brilham com mais força justamente no dia em que ela deixou este mundo. O ensinamento mais conhecido dele é a base de tudo o que ele ensinou: amar o próximo como a si mesmo. O segundo mais conhecido é o que abre este dia.
Neste mundo, quem quer se purificar costuma ir a algum lugar, procurar alguém, atravessar alguma distância. Rav Akiva aponta para outra coisa: para quem está verdadeiramente conectado à Luz do Criador, a purificação de Yom Kipur não passa por intermediário nenhum.
Rav Akiva cita um verso: Mikveh Yisrael Hashem. O mikveh é o corpo de água no qual alguém entra para se purificar. Mas para quem está verdadeiramente conectado, o mikveh é a própria Luz do Criador.
É a mesma mecânica, um nível acima. Você entra na água e sai limpo do que este mundo deixou em você. Hoje você entra no abraço da Luz, e sai limpo de tudo. Michael Berg é específico quanto a isso: neste dia é possível entrar de qualquer jeito, com qualquer impureza, com qualquer problema, com qualquer negatividade, e sair completamente purificado. No nível físico e no espiritual. É esse o propósito do dia.
Aqui está a inversão que muda o dia inteiro. O Maharal de Praga explica o processo pelo qual o Criador é o nosso mikveh, e a ordem dos fatos não é a que a gente imagina.
E isso tem uma consequência prática imediata: você não precisa escolher as palavras certas. Se quiser dizer as palavras da conexão, elas ajudam. Mas o essencial é fechar os olhos e ver, visualizar, experienciar o abraço do amor da Luz do Criador. É só disso que este dia se trata.
Todos os outros dias do ano, a conexão com a Luz do Criador é merecida. Você faz o trabalho, e a conexão acontece na medida do trabalho. É causa e efeito, e é justo.
Hoje, não. Hoje o Criador diz a cada um de nós, independentemente de quem somos e do que fizemos: eu quero unificar a minha energia, a minha força, o meu amor com você. Uma pessoa pode entrar em Yom Kipur como a mais negativa do mundo e ainda assim ter o desejo, fazer a conexão e receber o abraço completo.
É aí que a oportunidade começa. E é por isso que a pergunta de Yoel é sobre recipiente, e não sobre mérito.
Aqui o Maharal corrige outra ordem invertida. As cinco conexões, a leitura da Torah, o jejum, não usar sapatos de couro: nada disso existe para permitir a conexão, como se fosse o preço de entrada.
O jejum é um passo para trás em relação à consciência do corpo, para que o abraço chegue desimpedido. Isso muda completamente a forma de atravessar o dia. Você não está pagando por nada. Você está tirando o que estava no meio.
Existe uma frase conhecida no Talmud, e o Zohar também trata disso: em Yom Kipur, o Oponente não tem permissão para acusar. A leitura comum é que ele tira o dia de folga. Os kabalistas contam outra coisa, e ela é mais bonita.
No Pirkei De-Rabi Eliezer, a força que acusa pede ao Criador a chance de cumprir a sua função, que é encontrar falha. E o Criador concede exatamente um dia por ano. Esse dia é hoje. Não é folga: é o único dia em que ele tem licença para olhar.
E aí acontece a coisa mais surpreendente do ensinamento: o Criador escuta o testemunho de quem veio acusar. A própria força que existe para encontrar falha volta dizendo que não há falha, e desse testemunho saem bênçãos. Existe um conceito de que as bênçãos são mais poderosas quando não vêm apenas do Criador, mas quando os anjos negativos também enviam a sua Luz. É isso que acontece hoje.
Este é o ponto que Michael Berg diz ser perigoso não carregar em consciência. Hoje você precisa se ver como puro. Não como exercício de autoestima: porque é o que você é, e porque disso depende a sua proteção. Se por um segundo a pessoa pensa que não presta, que há algo errado com ela, chas v'shalom, o processo inteiro não acontece.
E disso vem o terceiro presente. Milagres não cabem neste mundo. O sistema foi criado sobre o teva, a natureza, e o mundo precisa funcionar pela natureza. Um milagre não tem como irromper aqui dentro.
Este é o único estado a partir do qual dá para atrair milagres para os próximos doze meses. Nos outros dias é muito mais difícil, porque você é parte deste mundo, e este mundo não recebe milagres. Hoje, não. Hoje você está no abraço.
Você consegue se ver hoje como a Luz te vê?
O que esta página é: uma síntese em voz própria de Thiago Moshe a partir de uma única aula: a conexão do dia de Yom Kipur com Michael Berg, 5787. As frases entre aspas são paráfrases próximas do que foi ensinado, não citações literais.
Fontes citadas na aula: o verso de Yoel sobre a grandeza deste dia · Rav Akiva, cuja hilulá é hoje, sobre diante de Quem nos purificamos e sobre Mikveh Yisrael · o Maharal de Praga, sobre o abraço que precede a purificação e sobre o propósito do jejum · o Talmud e o Zohar, sobre o Oponente em Yom Kipur · o Pirkei De-Rabi Eliezer, sobre o testemunho que vira bênção.
Uma nota de honestidade: a transcrição desta aula se interrompe no meio da última frase, enquanto Michael Berg reafirmava a consciência dos milagres. O insight 08 e a bênção de fecho seguem a linha que ele já tinha desenvolvido, mas o fecho literal dele não está aqui.
Textos do Kabbalah Centre: Yom Kipur · Um retorno à Luz do Criador, publicados no Onehouse.
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