Por que a primeira conexão do dia mais poderoso
do ano é a anulação dos votos
Michael Berg abre o Kol Nidre com uma pergunta simples e desconcertante: nós já anulamos os votos antes de Rosh Hashaná. Por que fazer isso de novo? E por que essa é a primeira coisa que fazemos no dia mais poderoso do ano? A resposta vem em três pontos de consciência, e ela muda a palavra: não se trata de anular promessas. Trata-se de desatar.
A Torah chama uma ação negativa de isur. Traduzido ao pé da letra, soa como uma ordem: você não deve fazer isso. Mas a raiz da palavra, que é onde mora a energia, diz outra coisa. Isur significa estar preso a algo.
Isso reposiciona o dia inteiro. Se o problema fosse a ação, o trabalho seria se punir por ela. Como o problema é a amarra, o trabalho é outro: hatará, se desprender, se separar daquilo. E é exatamente por isso que a primeira conexão do dia mais poderoso do ano tem esse nome.
Michael Berg conta que uma frase não parava de voltar à sua mente nos dias anteriores. Era uma frase que Rav Ashlag usava sempre que havia um segredo particularmente importante em jogo.
Existe uma sabedoria que se guarda. E existe uma que se abre, porque a oportunidade é grande demais para ficar escondida. Yom Kipur é claramente o dia mais poderoso do ano, com as maiores oportunidades para a nossa vida. Por isso o empenho em fazer tudo o que se puder para divulgar os segredos deste dia.
Kol Nidre está escrito em aramaico e fala, ao pé da letra, da anulação dos votos. Mas quem esteve na véspera de Rosh Hashaná já fez isso: todos nós já anulamos os nossos votos. Então por que de novo?
E a pergunta mais importante vem logo atrás: por que a primeira conexão que fazemos com o dia mais poderoso do ano é justamente essa? Se fosse burocracia espiritual, não ocuparia esse lugar. O que ocupa o primeiro lugar revela o que o dia inteiro é.
Monica Berg observou em Rosh Hashaná que a palavra da Torah para uma ação negativa é isur, e que a raiz dessa palavra não significa proibição. Significa estar preso.
Essa é a diferença entre carregar culpa e carregar peso. A culpa olha para trás e julga. O peso continua agindo, hoje, no presente, puxando você para as mesmas reações. Kol Nidre não trata da culpa. Trata do peso.
"Anulação dos votos" é a tradução de superfície. A palavra hebraica antiga, a que carrega a energia, é hatará: desprender-se de algo, separar-se de algo.
Então a primeira coisa que acontece em Yom Kipur não é confissão, nem contrição, nem inventário. É separação. Em consciência, em palavra e em ação, estamos nos separando de todas as forças negativas às quais nos ligamos no ano que passou.
O mikveh antes de Yom Kipur é a imersão mais importante do ano. Depois da conexão daquela tarde, alguns amigos da chavurá procuraram Michael Berg com a pergunta prática: qual é a consciência? A resposta foi simples, e por isso mesmo poderosa.
Você medita para ser matir, para separar a sua alma de todas as ações negativas que cometeu neste último ano. Depois, de todas as que cometeu na vida inteira. Depois, de todas as que cometeu em todas as suas encarnações. Três círculos que se abrem, um dentro do outro.
E tudo o que se compartilha sobre Yom Kipur, ele diz, é apenas uma fração da Luz e da oportunidade disponíveis. Mas é aqui que se começa.
O trabalho de Rosh Hashaná e de Yom Kipur é preparar o ano. Ainda assim, às vezes permanece Din, julgamento. Não como castigo: como semente. Uma questão de saúde, jurídica, financeira, familiar, qualquer coisa que ainda não se manifestou, mas já existe em nível de semente.
Esta é a segunda separação. A primeira foi de você com as suas próprias ações. Esta é de você, e de quem está ao seu redor, com o que ainda nem começou a acontecer.
Rav Shimon bar Yochai explica no Tikunei Zohar que o mundo como o vemos, com tanta escuridão, guerra, dor e morte, existe por causa do efeito cumulativo da humanidade. Individualmente, cada um de nós está preso à negatividade que criou. A humanidade inteira está presa à negatividade que todos criamos.
Um juramento não é uma sentença arbitrária. É causa e efeito em escala coletiva, e por isso mesmo pode ser desatado. A Luz de Yom Kipur tem o poder de remover esse laço antigo e profundo entre o nosso mundo e a raiz de toda a negatividade que nele se manifesta. Mas isso precisa estar presente na consciência de quem se conecta.
É o mesmo movimento em três raios que se alargam. Primeiro, você se separa de qualquer energia negativa à qual se ligou, de qualquer laço chamado isur. Segundo, se houver algum Din pairando sobre você ou sobre alguém próximo, ele é removido antes de se manifestar. Terceiro, o laço que parece inquebrável entre a humanidade e a escuridão que ela criou é rompido.
Você, o seu ano, o mundo. Isso é hatará. Isso é a separação, o desprender-se, disponível esta noite no Kol Nidre, com a Luz e o poder de Yom Kipur.
E a consciência pede um lugar para acontecer. É para isso que existe a meditação abaixo.
A que você ainda está preso?
O que esta página é: uma síntese em voz própria de Thiago Moshe a partir de uma única aula: a abertura do Kol Nidre por Michael Berg. As frases entre aspas são paráfrases próximas do que foi ensinado, não citações literais, com uma exceção: "Yesh bazeh sod ve-raui lefarsemo", de Rav Ashlag, é citada na própria aula.
Aula na origem desta síntese: Michael Berg, conexão de Kol Nidre, Yom Kipur 5785, em 11 de outubro de 2024, no Kabbalah Centre. O enquadramento desta página é 5787, porque o ensinamento se aplica a cada Kol Nidre. A aula já está com legendas em português para os mentorados.
Textos do Kabbalah Centre: Yom Kipur · Os quatro passos do teshuvá, publicados no Onehouse.
Atribuições: a frase "Yesh bazeh sod ve-raui lefarsemo" é de Rav Ashlag. A observação sobre a raiz de isur é de Monica Berg, feita em Rosh Hashaná e citada por Michael Berg. O Din em nível de semente vem de Rav Shimon, no Zohar. A shevuá do mundo vem de Rav Shimon bar Yochai, no Tikunei Zohar. A leitura de hatará, o mikveh e a meditação de ser matir são de Michael Berg.
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