Por que quase nunca oramos,
mesmo orando todos os dias
Esta página é uma síntese da aula de Michael Berg para o Shabat de Va'etchanan. Ele avisa logo no começo que esses três ensinamentos não têm nenhum propósito enquanto forem apenas compreendidos. Eles só existem se virarem prática diária. Leia com isso em mente.
O verso promete algo que ninguém mais no mundo tem: que o Criador está próximo de nós בְּכׇל־קׇרְאֵנוּ אֵלָיו, em todo e qualquer momento em que O chamamos. Michael Berg começa a aula pedindo honestidade: esse é o seu estado hoje?
A resposta quase sempre é não. E o caminho de volta, ensinam os kabalistas, é o contrário do que imaginamos. Não é chegar pronto. É chegar como גֹּלֶם, um embrião. É diante do que acaba de nascer que a Luz corre.
A porção começa com Moshe orando, e a intensidade dessa oração já indica o que este Shabat vem entregar: o poder da oração. Mais adiante vem o verso.
Michael Berg faz uma pergunta desconfortável a quem estuda no Kabbalah Centre há anos. Você já parou diante desse verso e perguntou se ele é verdadeiro para você? Você pode dizer que está nesse nível, que sempre que chama, o Criador está próximo e a sua oração é atendida?
Ele responde por todos nós, sem constrangimento: não, esse não é o nosso estado. Mas Moshe e o Criador estão dizendo neste Shabat que esse é o estado que devemos alcançar. É o propósito final de todo o trabalho espiritual.
Aqui está a virada que sustenta tudo o que vem depois, e ela é radical o bastante para reorganizar a vida espiritual de quem a leva a sério.
Oração é um estado de existência. Não é o texto que você lê, não é a quantidade de vezes por dia, não é o esforço da repetição. É um estado de consciência no qual você está tão perto da Luz que, ao chamar, sente a proximidade e a assistência da Luz do Criador.
Por isso a pergunta do insight anterior não é uma acusação. É um diagnóstico. Se rezamos três vezes ao dia há anos e o verso ainda não descreve a nossa vida, é porque o que fizemos até aqui não era, tecnicamente, oração.
O Midrash traz um ensinamento dos kabalistas sobre três coisas que devem ser feitas uma imediatamente após a outra. Michael Berg foca na terceira: תֵּכֶף לִגְאֻלָּה תְּפִלָּה, ligar a parte da redenção diretamente à amidá, a oração silenciosa, sem nada entre uma e outra.
E a promessa é categórica: quem faz assim tem garantia de que sua oração será recebida.
Só que, de novo, quem ora todos os dias sabe que não é essa a experiência. Então tem que haver algo mais fundo. Os kabalistas não estão dizendo que a ordem das frases garante o resultado. Estão apontando para um estado que essas frases deveriam produzir. É esse estado que os três segredos descrevem.
O estado de oração, ensinam os kabalistas, é quando a pessoa experimenta que tudo é apenas a Luz do Criador. A expressão é מְלֹא כׇל־הָאָרֶץ כְּבוֹדוֹ, toda a terra está repleta de Sua glória.
Michael Berg dá o contraexemplo, que é exatamente o que quase todos fazemos. Alguém tem um problema e vai orar. O que está dizendo, na estrutura da consciência? Existe este problema, esta matéria escura, e existe a Luz, e eu quero puxar Luz para dentro do escuro. São três participantes: eu, a Luz e o problema.
O estado real de oração tem um participante só. Quando a pessoa chega à consciência de que tudo o que existe é a Luz do Criador, de que só há a Luz e eu, de que não há escuridão, não há problema, não há ninguém criando um problema para mim, nem eu mesmo criando um problema para mim, então ela está de pé diante do Infinito. E o que está diante do Infinito não pode continuar em falta.
Se a oração é esse estado, então quase tudo o que chamamos de oração é preparação mal feita. Os kabalistas, conta Michael Berg, meditavam uma hora inteira antes de sequer pensarem em começar a orar.
Uma hora em מְלֹא כׇל־הָאָרֶץ כְּבוֹדוֹ. Não para saber a frase, mas para que a frase acordasse a experiência: estou completamente cercado pela Luz do Criador, não existe nada além dela.
E aí, diz ele, a oração em si pode levar um segundo. Porque você já está com o Infinito, e diante do Infinito a escuridão não tem onde existir.
Ele é honesto sobre a distância: quase nenhum de nós está aí. Mas também é claro sobre a escala. Não é tudo ou nada. Se hoje você chegar com sete por cento mais dessa consciência, ou dez por cento mais, a oração é exatamente essa fração mais poderosa.
O segundo segredo responde a uma pergunta que raramente fazemos: para que serve orar? Tirar problemas e atrair bênçãos é um benefício, mas é secundário. O propósito é um só.
A intenção com que se chega deve ser que eu seja transformado por esta oração. Porque não tenho falta por causa do Criador. A Luz quer dar tudo, o tempo todo. Tenho falta porque estou vivendo em um estado separado da Luz do Criador.
Então você não chega dizendo "há um problema aqui e outro ali". Você chega dizendo: eu reconheço que a razão de eu estar experimentando esta falta é que existe uma desconexão, e meu desejo único agora é ser mudado por esta conexão. Todo o ego e o egoísmo e as bobagens que me desconectam, quero que se dissolvam.
E o Criador está mais próximo da pessoa do que um amigo íntimo. Quando esse é o pedido, a Luz abraça o indivíduo imediatamente, porque é exatamente isso o que a Luz quer. Depois, sim, secundariamente, as faltas se vão. Mas não é por isso que se vem.
Há um verso nos Salmos: גָּלְמִי רָאוּ עֵינֶיךָ, "seus olhos viram o meu estado embrionário". Normalmente se traduz como uma curiosidade: o Criador me viu quando eu era um embrião. E daí?
Os kabalistas leem como instrução. É a consciência com que se deve chegar à oração. Você precisa se ver de novo no seu estado embrionário.
Como a maioria de nós chega? "Eu sou quem eu sou. Tenho coisas boas, algumas nem tanto, tenho problemas e coisas que precisam ser preenchidas." Mas se o propósito da vida é crescer continuamente na conexão com a Luz, então compare o estado em que você está com o estado em que deveria estar. Você não é menos. Você não é uma criança. Você é um embrião.
Michael Berg mostra por que isso funciona, e é quase óbvio quando ele diz. Um homem chateado na calçada, talvez você ajude, talvez não. Uma criança, é mais provável. Um bebê no primeiro segundo de vida, chorando: praticamente todo ser humano se move para ajudar. Há algo inscrito na Criação que faz com que o mais recém-nascido seja aquilo que desperta socorro em todos.
É assim que a Luz do Criador socorre. Chegue como uma alma em estado embrionário, e a Luz vem imediatamente.
Michael Berg fecha com o Zohar da porção de Miketz, começando na Seção 88, sobre o verso יֹצֵר רוּחַ אָדָם בְּקִרְבּוֹ, o Criador forma o espírito do ser humano dentro dele.
O Zohar diz: quando nascemos, e nascer aqui não é só o dia em que viemos ao mundo, é toda manhã, porque חֲדָשִׁים לַבְּקָרִים, somos renascidos a cada dia, a totalidade da alma ainda não encontra lugar dentro de nós para se expandir. O que experimentamos da nossa própria alma é uma fração minúscula, sentada de lado. Um embrião.
É esse o trabalho dos três segredos. Não são três exigências a mais na rotina. São três movimentos que abrem espaço para a alma caber dentro da vida. E aí o verso da porção deixa de ser uma promessa distante e passa a descrever o dia comum: a Luz próxima, em todo e qualquer momento em que chamamos.
Se eu chegasse hoje sem trazer nenhum pedido, apenas o desejo de ser mudado, o que na minha vida eu descobriria que nunca foi o verdadeiro problema?
Fonte: aula de Michael Berg para o Shabat da porção Va'etchanan, em 25 de julho de 2026 (5786), a partir da transcrição integral em inglês da aula. Síntese, organização e adaptação por Thiago Moshe · Insights Kabalísticos. As frases entre aspas são paráfrases das palavras do professor, não transcrições literais.
Fontes textuais citadas na aula: Devarim (Deuteronômio) 3:23 e 4:7 · Tehilim (Salmos) 139:16 · Yeshayahu (Isaías) 6:3 · Eicha (Lamentações) 3:23 · Zecharyah (Zacarias) 12:1 · o ensinamento do Midrash sobre תֵּכֶף לִגְאֻלָּה תְּפִלָּה · o Zohar, porção Miketz, começando na Seção 88 (a explicação segue pelas Seções 88 a 90) · e ensinamentos de Rav Ashlag.
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