O Shabat paradoxal, e o único
trabalho espiritual que existe
Esta página é uma síntese da aula de Michael Berg para o Shabat de Va'etchanan. Ele mesmo avisou no início: era um ensinamento que ele passou a semana inteira rodeando, sabendo que havia ali uma jóia, sem conseguir ainda chegar ao cerne. Quando chegou, o que apareceu não foi uma ideia bonita, foi o trabalho.
Em um mesmo verso, Moshe descreve o Sinai de duas formas que não cabem juntas. A montanha ardia em fogo até o coração dos céus, uma revelação que ia deste mundo físico ao mais alto. E, três palavras depois: escuridão, nuvem e neblina.
Não são dois momentos. É um só. E é exatamente assim que vivemos cada instante da nossa vida: o que acontece de verdade é לֵב הַשָּׁמַיִם, e o que nossos olhos relatam é עֲרָפֶל. A porção inteira gira em torno de qual dos dois relatos a gente decide acreditar.
Va'etchanan significa literalmente implorar, suplicar, orar. E quem implora é Moshe. Michael Berg faz questão de estabelecer o peso disso antes de qualquer outra coisa: a vida inteira de Moshe foi entregue aos israelitas, nos momentos em que o amavam e nos momentos em que o odiavam. Em 120 anos, ele nunca pediu nada para si.
Agora, no fim da vida, ele faz um pedido. Um só. Deixe-me atravessar e ver essa terra. A palavra וָאֶתְחַנַּן tem valor numérico de 515, e os kabalistas ensinam que ele orou por isso 515 vezes.
E a resposta que vem é רַב־לָךְ, que em tradução literal soa como: pare. Pare de pedir, pare de implorar, pare de orar.
Mais adiante na porção, Moshe reconta a revelação no Sinai, o momento que deveria ser o mapa de volta ao mundo como ele deveria ser, sem o caos, a dor, o sofrimento e a morte que hoje prevalecem.
E ele diz que a montanha ardia em fogo até o coração dos céus. Não era fogo físico apenas, era uma Luz tão forte que subia deste mundo até o alto. Duas ou três palavras depois, ele diz o oposto exato: escuridão, nuvem e neblina.
Michael Berg insiste na incompatibilidade, porque é dela que nasce todo o ensinamento. No mundo físico, ou há grande revelação, ou há grande escuridão. As duas acontecem na vida de qualquer um, mas não no mesmo instante. Aqui, acontecem.
Qual dos dois foi, Moshe? A resposta é: os dois. E o que decide qual você vive não é o momento. São os seus olhos.
Para responder, Michael Berg vai ao Zohar da semana, Seção 33. Rav Elazar e Rav Chiya caminham (os sábios do Zohar quase nunca estudam sentados, é andando que as revelações chegam) e conversam sobre Adam e Chava, as duas primeiras consciências que despertaram para se conectar à Luz do Criador.
Depois da queda, o texto diz: e os olhos dos dois se abriram. Michael Berg para nessa frase. Quando alguém diz hoje "finalmente meus olhos se abriram", está dizendo que enxergava algo falso e agora enxerga o verdadeiro. Abrir os olhos é sempre bom.
O Zohar completa a frase: os olhos deles se abriram para ver este mundo físico ilusório. Não é que passaram a enxergar melhor. É que passaram a enxergar a ilusão, e a ilusão passou a ser a experiência deles.
O Zohar diz que, antes disso, os olhos de Adam e Chava não viam a ilusão deste mundo. Não viam a escuridão nem a dor que nós vemos. Viam somente a Luz. Eles viviam no mundo físico, mas não experimentavam o mundo físico com a consciência que nós temos. Sua percepção verdadeira era a dos Mundos Superiores.
Aqui está o eixo de tudo, e vale ler devagar: consciência é a forma como experimentamos a vida. A queda não mudou o mundo. Mudou os olhos. E como os olhos mudaram, a vida mudou junto.
Por isso o Zohar diz que a pessoa não consegue uma conexão real com a Luz do Criador enquanto não trocar os olhos físicos pelos olhos espirituais. Não é uma metáfora bonita. É a condição.
O Zohar traz então versos de Yeshayahu, capítulo 42, e é aqui que a lógica inteira se inverte. O Criador descreve o estado final do desenvolvimento espiritual assim: eu conduzirei os cegos por um caminho que eles não conheciam.
E quem é esse cego? O verso responde: não há ninguém tão cego quanto o Meu servo, aquele que está perto de Mim, aquele que envio para fazer Minha obra neste mundo.
Somente aqueles que se cegaram para a ilusão deste mundo encontram caminhos de Luz que nem imaginavam. O que antes experimentavam como escuridão vira experiência de grande Luz. Os obstáculos que viam no caminho se aplanam. Os que ficam surdos para este mundo, ouvem. Os que ficam cegos para este mundo, veem.
Michael Berg encerra com o que chama de uma de suas revelações favoritas, e das mais estranhas. Rav Ashlag ensina que tudo, da menor criação e da menor ação até a experiência mais grandiosa, está conectado a tudo, conectado à Luz infinita do Criador, conectado ao caminho que nos leva ao Gemar haTikkun, o Fim da Correção.
E ele leva isso ao extremo desconfortável, citando a pergunta dos antigos filósofos: como pode um camelo urinando sobre um formigueiro, e as formigas se afogando, estar conectado à Luz do Criador? Rav Ashlag responde sem rodeios: quem faz essa pergunta não tem compreensão da Luz do Criador, porque acha incongruente que a grandeza esteja envolvida com o insignificante.
Michael Berg confessou o próprio constrangimento de trazer isso à sala de conexão, num Shabat, minutos antes da leitura da Torah. E é exatamente esse o ponto. A falácia terrível é acreditar que existam momentos insignificantes, momentos que não estejam completamente preenchidos de Luz infinita.
Aqui a aula deixa de ser ensinamento e vira instrução prática, e Michael Berg foi bem direto sobre o custo: será um trabalho difícil.
Algo vai acontecer nesta semana. Você vai querer que algo aconteça, talvez até vá orar por isso, porque você é uma pessoa que trabalha espiritualmente. E não vai acontecer. Nesse instante você tem uma escolha. Ou olha com os olhos de depois da queda e diz "que momento sombrio, que momento nublado". Ou se lembra.
"Mas eu não consigo ver." Tudo bem, você ainda não chegou lá. Michael Berg é claro: você vai ter que contar essa história a si mesmo primeiro, cem vezes, mil vezes, mesmo com os olhos físicos discordando. É a repetição que troca os olhos.
Ele deu o exemplo mais doméstico possível. Seu filho David disse, num dia da semana: "não estou me sentindo inspirado hoje". E a resposta foi essa mesma. Justamente esse momento, o de completa falta de inspiração, é um momento de revelação inacreditável. Se você ainda não vê, é porque não está treinando os olhos.
E agora a porção se resolve. Os kabalistas ensinam que Moshe não queria um terreno físico. Seu desejo era puro: ele acreditava que, entrando na terra de Israel, se elevaria a um nível espiritual mais alto. E teria se elevado. Um pouco mais de Luz, um pouco mais de bênção.
A resposta רַב־לָךְ não foi um não. Michael Berg lê, com um dos grandes kabalistas: Moshe, você está pedindo pouco. Não vou lhe dar pouco. Vou lhe dar muito mais, muito além do seu desejo, até mesmo do seu desejo consciente. E vou lhe dar agora.
Quem olhasse de fora, com os olhos deste mundo, veria a cena mais triste da Torah: o homem mais altruísta que já existiu faz um único pedido e ouve não. Essa é a visão falsa. Moshe recebeu infinitamente mais do que pediu. E Moshe foi capaz de ver isso.
E é por isso que o Gemar haTikkun, o Fim da Correção, não é um evento externo. Não é alguém que chega, nem algo que acontece com o mundo. Nossos olhos vão mudar, e os olhos do mundo vão mudar, e finalmente veremos o que sempre esteve acontecendo.
Se cada momento da minha vida estivesse repleto de Luz infinita, e o único obstáculo fossem os meus olhos, o que eu deixaria de chamar de "momento ruim" já a partir de hoje?
Fonte: aula de Michael Berg para o Shabat da porção Va'etchanan (17 de agosto de 2024). Síntese, organização e adaptação por Thiago Moshe · Insights Kabalísticos. As frases entre aspas são paráfrases das palavras do professor, não transcrições literais.
Fontes textuais citadas na aula: Devarim (Deuteronômio) 3:23 a 3:26 e 4:11 · Bereshit (Gênesis) 3:7 · Zohar, porção Va'etchanan, Seção 33 (Rav Elazar e Rav Chiya) · Yeshayahu (Isaías) 42 · e escritos de Rav Ashlag sobre o Gemar haTikkun, lidos por Michael Berg durante a aula.
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