A força de criar histórias,
e a única coisa que a Teshuvá conserta
Esta página é uma síntese da aula de Michael Berg para o Shabat de Shoftim, no mês de Elul. Ele começa desmontando o que achamos que a Teshuvá é, e termina com um pedido que só pode ser feito neste Shabat.
O Salmo que os kabalistas mandam ler todos os dias deste mês abre perguntando duas vezes a mesma coisa: de quem temerei, de quem me recearei. É a palavra pachad, medo, no primeiro verso do Salmo 27. E a resposta que o mês inteiro trabalha é a segunda palavra: Emuná.
Michael Berg mostra que as duas saem da mesma fonte dentro de nós, o Koach haMedameh. O medo é uma história sobre algo que ainda não aconteceu. A certeza é uma história sobre algo que você ainda não consegue ver. Nenhuma das duas é o fato. A pergunta do mês de Elul não é se vamos criar uma história, é qual.
Elul é o mês mais importante do ano, o que conduz aos dois dias mais importantes de todos. O trabalho deste mês se chama Teshuvá, e quase sempre o entendemos como um inventário: olhar para trás, rever o que fizemos e o que deixamos de fazer, lembrar de quem magoamos e de quem deveríamos ter ajudado mais.
Michael Berg vai direto ao centro e reduz tudo a um único item. A certeza. Percorrer o ano e lembrar cada momento de medo, cada momento de dúvida, cada vez que não confiamos que o que estava acontecendo vinha da Luz do Criador e, por isso, era para o nosso bem.
Ele reconhece na hora o que isso implica. Se tudo vem da Luz do Criador, então não deveria haver medo, nem dúvida, nem preocupação, e deveria haver apenas felicidade o tempo todo. E acrescenta, com a honestidade que a aula inteira carrega: essa não foi a nossa experiência este ano.
Para nos ajudar nesse trabalho, Michael Berg traz um ensinamento de Menachem Mendel de Breslav, e avisa que cabe em uma palavra só, mas que precisa ser expandida para virar consciência. O kabalista parte de um verso em Hoshea, Oséias: nas mãos dos profetas eu coloco o poder da criatividade.
Essa é uma forma de traduzir a expressão Koach haMedameh. E aqui Michael Berg abre uma pergunta que ele mesmo deixa sem fechar: os animais sonham? Os animais criam histórias? Por que cada um de nós carrega essa capacidade, e de onde ela vem?
A resposta vem de Rav Ashlag, e é o eixo da aula inteira: qualquer capacidade que temos existe para um único propósito, nos aproximar da Luz do Criador. Se é assim, o verso em Oséias muda de sentido. Os profetas eram os mestres daquela geração porque tinham o Koach haMedameh consertado. E é isto, e nada mais, que um mestre espiritual serve para fazer.
Michael Berg fala como quem atende ao telefone há décadas. Existem os 3% de problemas reais. Mas 97% das vezes em que as pessoas ligam para ele com um problema, o problema é o Koach haMedameh. É uma história que foi inventada. Por que esta pessoa está agindo assim comigo? Por que eu tenho medo disto?
O teste que ele propõe é simples e desarma quase tudo. A pessoa tem medo de voar. Está acontecendo alguma coisa agora? Claro que não. Se estivesse, não seria medo, seria realidade. O medo é sempre a história de um futuro que ainda não chegou.
E ele empurra o teste mais fundo, para o lugar onde ele dói. Mesmo quando existe um problema de verdade agora, não é dele que estamos sofrendo. O problema como ele existe hoje, você dá conta? Sim, eu dou conta. O que pesa é a história de que o problema pode ficar maior.
Esta é a virada da aula. Algo difícil acontece, uma ligação do médico, do advogado, de um amigo. Michael Berg não finge que o fato é outro: se você olha só para o que está acontecendo, não é bom. A certeza não é negar isso.
A certeza é criar uma história alternativa. Mesmo sem enxergar como, isto tem que vir da Luz do Criador, que é pura essência de bondade, e portanto vai se manifestar, no fim, como algo bom. E ele insiste no detalhe que muda tudo: essa história não é óbvia quando você está dentro do momento. Você tem que criá-la.
Ele chega a discordar de professores que dizem que só se deve olhar para a realidade. Nenhum de nós vive a realidade pura. Estamos criando histórias todos os dias da nossa vida. O que a Kabbalah pede não é parar de criar, é criar a verdadeira, aquilo que ele chama de Emuná HaKedoshá, a certeza pura e sagrada.
Aqui está o coração do ensinamento, e Michael Berg o apresenta como uma conta. Você acordou hoje com cerca de cem partes de Koach haMedameh, a força que permite criar uma história. Seu marido, sua esposa, seu filho, um amigo diz alguma coisa. E você começa a criar.
Em geral, uma história negativa. Sessenta partes na mágoa e na decepção. Depois acontece outra coisa, e vem a raiva: como ele ousa. Lá se vão as quarenta que sobravam. Michael Berg resume sem rodeios: você usou 100% da sua força de criar histórias para criar duas histórias falsas.
E então vem a ligação do médico. A pessoa é espiritual, talvez estude no Centro, e sabe exatamente o que precisa fazer: despertar a certeza. Ela quer, desesperadamente. Vai abrir o Zohar, procurar o professor, ligar para os amigos. Mas o reservatório acabou. A força de criar aquela história já foi gasta.
Michael Berg leva a conta até o fim, e é aqui que a aula fica desconfortável. Por que o Criador me deu cem partes de Koach haMedameh ao acordar? Não sem motivo. Foi porque, para eu revelar a Luz que devo revelar hoje, preciso de 100% dessa força para criar histórias de certeza.
Então a matemática se inverte e passa a contar o que se perdeu. Fico aborrecido, crio uma história negativa, gasto cinco partes de cem.
Ele diz que espera que isso não seja apenas fundamental, mas também assustador. E não deixa a coisa no abstrato. Hoje, promete ele, você vai ter umas cem oportunidades de criar uma história negativa. A instrução é de uma palavra: pare. Lembre a si mesmo que o reservatório é limitado e que você vai precisar dele inteiro.
Um homem acorda, a esposa diz algo que ele não gosta. Foi uma interação de dois segundos. Mas agora vem a história: ela não me valoriza, como pôde falar comigo assim. Trinta por cento da força do dia, gastos. Ele vai passar seis horas chateado, e Michael Berg diz que isso já seria ruim o bastante.
Só que não é o pior. A história negativa não fica dentro da sua experiência. Ela encapsula uma realidade que também é negativa.
E o contrário é igualmente verdadeiro, o que torna a certeza muito mais do que uma postura mental. O amigo liga contando que alguém falou o pior de você. Você para e diz: isto vem da Luz do Criador, portanto é para o meu bem. Você tirou do mesmo reservatório e criou uma história positiva. A certeza transformou a situação, a raiva teria transformado também, para o outro lado. Você potencializa a bênção ou a maldição. As duas se multiplicam.
Vivemos no que os kabalistas chamam de Alma deShikra, o mundo da mentira, e por isso boa parte das histórias que contamos sobre nós mesmos não é positiva. Michael Berg escolhe duas para trabalhar neste mês.
A primeira: eu já faço o suficiente, eu sou uma pessoa espiritual, está tudo bem por aqui. Ele conta que uma das coisas mais engraçadas que já viu é alguém que se acha espiritual, talvez até ensinando espiritualidade, e bastam dois segundos para perceber que não é. É a resposta de Lavan, que a Torah mostra como trapaceiro e mentiroso: quem é você? Eu sou Lavan, eu sou branco puro. E o efeito dessa história é preciso: ao subestimar a minha verdadeira força, eu me permito viver uma vida pequena.
A segunda é o oposto exato, e ele a nomeia pelo nome que usamos hoje: a síndrome do impostor. Alguém fazendo coisas extraordinárias e pensando por dentro que não deveria estar ali, que não tem direito. As duas são o Koach haMedameh escrevendo ficção sobre nós.
Se o trabalho inteiro de Elul é consertar o Koach haMedameh, então entende-se por que os kabalistas instituíram a leitura do Salmo 27 todos os dias deste mês. Michael Berg é enfático na recomendação, e diz que ela não é dele: os kabalistas afirmam, há milhares de anos, que quem lê o Salmo todos os dias tem um Elul e um Rosh Hashaná poderosos, quase garantidos.
Mas ele corrige de imediato a forma. Não se trata de dizer o Salmo 27, trata-se de vivenciar o Salmo 27, entendendo cada palavra. O Criador é a minha luz e a minha salvação. Uma vez conectado desse jeito, não importa que coisa negativa se aproxime, ou que eu ache que está se aproximando. Não há medo.
E aí a porção fecha o círculo. Shoftim traz a história inteira da batalha, e quando a batalha chega, diz o Criador, o propósito é outro.
Michael Berg encerra com um ensinamento do kabalista Dibre Emet, e com um aviso que desarma qualquer entusiasmo fácil. Não basta ouvir uma aula, sair inspirado e prometer que a partir de hoje só vai criar histórias positivas. Isso não vai acontecer. Os canais estão danificados, e não é de um ano só: são anos anteriores e encarnações anteriores.
Por isso, diz ele, temos que implorar neste Shabat. É este o propósito da leitura da Torah de Shoftim no mês de Elul: cada palavra ouvida está ali para consertar o Koach haMedameh. E o que está disponível não é pouco. Michael Berg diz que, feita a conexão, é possível perder a capacidade de criar uma história negativa, nunca mais. Se acontece, acrescenta ele, depende da conexão pessoal de cada um.
Michael Berg pede que o Salmo seja vivenciado, palavra por palavra, e não apenas recitado. Por isso ele está aqui inteiro, e não somente citado. Leia-o todos os dias deste mês de Elul.
Kaveh el HashemTradução baseada em Salmos 27, The Kabbalah Centre. O Nome é vertido como o Criador, como Michael Berg o lê na própria aula.
Kaveh el Hashem · "Espera no Criador, anima-te, e Ele fortalecerá o teu coração; espera, pois, no Criador." O verso final do Salmo 27, aquele com que Michael Berg encerra a aula.
Se eu tenho cem partes de força para criar histórias hoje, quantas vou gastar com o medo, e quantas vou guardar para a certeza?
Aula: Michael Berg, Shabat de Shoftim, 30 de agosto de 2025 · The Kabbalah Centre. Síntese e adaptação por Thiago Moshe · Insights Kabalísticos.
Fontes citadas na aula: um verso em Hoshea (Oséias) e o ensinamento de Menachem Mendel de Breslav sobre o Koach haMedameh · Rav Ashlag, sobre o propósito único de toda capacidade que temos · o Salmo 27, lido todos os dias do mês de Elul · e, no encerramento, o kabalista Dibre Emet. As frases entre aspas são falas de Michael Berg na própria aula.
Talvez alguém que você ama esteja gastando a força do dia inteiro com uma história de medo, sem saber que é isso que está acontecendo. Estas notas ajudam a perceber.
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