O segredo da morte
e o convite a se tornar um fanático da vida eterna
Esta página é uma síntese da palestra de Shabat de Michael Berg sobre a porção Pinchas, um mapa para você voltar à fonte. Por trás de histórias que parecem desconectadas, a ascensão de Pinchas, os sacrifícios, o pedido das filhas de Tzelofchad, o Sefat Emet revela uma só verdade: chegou a hora de o despertar vir de dentro de nós.
Michael Berg repete, como um refrão, as palavras da bênção que dizemos sobre a Torah: chayei olam natah betocheinu, “o Criador plantou a vida eterna dentro de nós.” A morte nunca pode tocar o que é verdadeiramente vivo. Se, ainda assim, sentimos dor, perda e escuridão, é porque colocamos essa faísca de vida eterna em lugares onde ela nunca deveria estar.
A porção Pinchas reúne acontecimentos que, à primeira vista, não têm nada a ver uns com os outros: a ascensão espiritual da alma de Pinchas, uma longa discussão sobre sacrifícios no Tabernáculo, e o pedido das filhas de Tzelofchad, que se levantam para dizer que a lei, do jeito que estava, não fazia sentido, e estavam certas. Lida ao pé da letra, parece só mais uma história antiga entre tantas outras.
Mas o grande kabalista Sefat Emet ensina algo diferente: o que aconteceu naquele momento continua acontecendo, agora, na energia deste Shabat. E essa energia, diz Michael Berg, carrega um dos ensinamentos mais fundamentais do Rav Ashlag, fundador do Kabbalah Centre, e da forma como Rav Berg e Karen Berg conduziram o Kabbalah Centre até hoje.
Nos primeiros quarenta anos no deserto, era Moshe quem liderava: a Luz brilhava do alto e ele orientava os israelitas sobre como recebê-la, o que os kabalistas chamam de despertar vindo de cima. Mas o Sefat Emet ensina que, com Pinchas, algo muda: agora cabe aos israelitas iniciar o despertar por conta própria, sem esperar passivamente que Moshe lhes mostre onde a Luz está brilhando.
É por isso que quem se levanta nesta porção não é Moshe, mas Pinchas, e por isso as filhas de Tzelofchad, e não o próprio Moshe, trazem a ideia certa. O próprio Moshe não sabia a resposta, porque não se tratava de uma dúvida sobre a lei, e sim de uma mudança geracional na forma como cada pessoa se relaciona com a Luz do Criador.
Até o Rav Ashlag, a transmissão espiritual sempre seguiu uma única direção: de professor para aluno. O Rav Ashlag deu início a uma revolução, não porque teve uma ideia e a colocou em prática, mas porque, como ensina o Rav Avraham Azulai, há momentos na história da humanidade em que ocorre uma mudança no reino espiritual, e alguém precisa abrir uma porta para que essa mudança se concretize.
O mesmo vale para Rav Berg e Karen Berg, na década de 1970: eles não decidiram, por conta própria, mudar algo, a mudança já estava em curso, e eles escolheram se aliar a ela. Michael Berg conta que, num encontro recente com professores do Kabbalah Centre, sentiu que as coisas estão mudando de novo, e é exatamente essa disposição de sentir e de se abrir que ele pede a cada um de nós.
Michael Berg é direto: se hoje você está fazendo exatamente o que fazia há dez, vinte, trinta anos, algo está errado, não porque o caminho antigo fosse falso, mas porque os reinos espirituais nunca ficam parados. O que era o caminho certo nos primeiros quarenta anos se tornou o caminho errado nos quarenta seguintes. A mesma ferramenta que um dia nos serviu pode, hoje, já não ser mais a que a realidade espiritual está pedindo.
Por isso ele insiste: sem fazer parte de uma comunidade que pergunta, junto, qual é a necessidade espiritual deste momento, e sem pedir isso ao Criador, corremos o risco de continuar fazendo, com toda a boa intenção, o trabalho de ontem.
Michael Berg lembra a bênção que dizemos sobre a Torah: chayei olam natah betocheinu, o Criador plantou a vida eterna dentro de nós. Os kabalistas ensinam que a morte jamais pode tocar aquilo que é verdadeiramente vivo. Se isso é verdade, por que quase todos nós já sentimos dor, doença, escuridão, e, no fim, a própria morte?
A resposta, diz ele, é o segredo: a morte só toca os lugares onde uma pessoa colocou sua vida eterna onde ela não deveria estar. Um exemplo simples, que Monica Berg trouxe pouco antes desta palestra: quando alguém faz um discurso e se preocupa com o que a pessoa à sua frente está pensando, essa pessoa está pegando uma faísca de sua vida eterna e colocando-a exatamente onde ela não pertence.
Aqui está a virada. Sempre que colocamos nossa faísca de vida eterna num lugar onde ela não pertence, existe um sistema de proteção: o Criador, como um favor, separa essa faísca daquele lugar, e devolve, guardada, até que possamos recuperá-la longe da mentira em que a havíamos plantado. Para quem ainda acredita na ilusão, essa separação parece dor, constrangimento, doença ou perda. Mas, na verdade, é uma renovação.
Por isso, cada experiência de dor é, no fundo, uma experiência de vida: um lembrete de que investimos onde não devíamos, e um passo a mais em direção ao que os kabalistas chamam de Olam HaEmet, o mundo da verdade. A dor deixa de ser só sofrimento e passa a ser também um convite.
A Torah chama Pinchas, e depois Eliyahu, de kanai, palavra usada para nomear alguém radical, que leva as coisas ao extremo. A tradição ensina que Eliyahu nunca precisou morrer, porque eliminava, dia após dia, todo investimento na mentira e nos lugares sombrios de sua própria vida. Viveu, e vive, para sempre: b'chayei olam.
Mas Michael Berg é claro sobre onde mora esse radicalismo: nada fora de mim. Não é ser fanático em relação a ninguém nem a nada externo, é ser radical dentro de mim: não tolerar mais que meu ego se intrometa, não me permitir mais me importar com o que as pessoas pensam de mim, proteger, com fanatismo, a vida eterna que já está dentro de mim.
Michael Berg fecha a palestra reunindo cinco ideias fundamentais: a vida nunca pode ser afetada pela morte; o segredo da morte é que o Criador, como um favor, separa nossa vida eterna dos lugares de escuridão onde a colocamos; quem vive apegado ao ego precisa, felizmente, passar por essa separação; quem faz o trabalho diário de reconhecer a ilusão se torna um verdadeiro fanático, e passa a apenas vivenciar a vida; e o mundo só se transformará quando houver pessoas suficientes internamente fanáticas por proteger sua própria vida eterna.
O convite que ele deixa é simples e exigente ao mesmo tempo: faça sua própria lista de tudo aquilo, pessoas, opiniões, resultados, em que você continua investindo tempo e energia sabendo, no fundo, que é ilusório. E decida, hoje, e de novo amanhã, não arriscar mais sua vida eterna nesses lugares.
Hoje, onde estou colocando minha vida eterna, na verdade, ou na ilusão?
Sobre esta página: síntese livre, na voz de Thiago Moshe, da palestra de Shabat de Michael Berg sobre a porção Pinchas (19 de julho de 2025). O ensinamento sobre o despertar vindo de cima e o despertar vindo de baixo é atribuído por Michael Berg ao Sefat Emet; a passagem em hebraico citada pelo Sefat Emet na palestra não estava disponível na transcrição e foi, por isso, omitida desta página.
A leitura de Pinchas e Eliyahu como kanai e as cinco ideias fundamentais sobre a morte são atribuídas por Michael Berg aos kabalistas e ao Rav Berg. O exemplo sobre se preocupar com a opinião alheia é atribuído a Monica Berg. As frases destacadas são paráfrases das palavras do professor.
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