Michael Berg e o segredo
do Nome de 42 Letras
Esta página é uma síntese da palestra de Shabat de Michael Berg sobre Matot-Masei. Um Shabat que, segundo ele, não é sobre a lista de 42 lugares onde os israelitas pararam, mas sobre a ferramenta mais importante já entregue ao nosso mundo.
As 42 paradas dos israelitas ficam exatamente entre a saída do Egito e a entrada na Terra de Israel. Michael Berg lê esse posicionamento como um mapa: o Egito é o Galut, toda a escuridão; a Terra de Israel é a elevação, a remoção da dor, do sofrimento e da morte.
E o que existe entre um e outro? As 42 Letras. O único caminho da escuridão para a Luz, ensina ele, passa pelo Ana BeKo'ach.
Masei encerra o Quarto Livro e, na leitura dos kabalistas, encerra a Torah. O Quinto Livro, o Mishnê Torah, cumpre outro propósito. Ou seja: as últimas palavras da Torah de Moshe estão aqui.
E Michael Berg parte de uma intuição simples: quando um grande mestre sabe que sua hora de deixar este mundo chegou, ele entrega no fim o que guardou a vida inteira. Foi o que fez Rav Shimon bar Yochai na Idra Zuta, quando disse que havia coisas que reteve por todos aqueles anos e que agora precisava dar.
Literalmente, a porção lista as 42 paradas dos israelitas na travessia. Mas a Torah não gasta uma letra a mais. Se o objetivo fosse registrar fatos históricos, qualquer um poderia fazer a lista.
O Ramban (Rav Moshe ben Nachman), que quase sempre revela o segredo depois da explicação literal, aqui faz algo estranho: cita Rashi, cita o Rambam (Maimônides), e então diz que o segredo desta porção não nos foi revelado. No Talmud, na passagem sobre o Nome de 42 Letras, Rashi escreve de novo: "este Nome, nós não o conhecemos".
Michael Berg é direto: os comentadores posteriores entendem que eles estavam ocultando. Sabiam o segredo, e sabiam que o mundo ainda não podia recebê-lo. As 42 paradas são as 42 Letras do Ana BeKo'ach.
O Talmud conta que o verdadeiro poder da Bênção dos Kohanim não estava nas palavras ditas em voz alta. As mãos erguidas eram um véu. Poucos, os tzenuim, sussurravam as Letras enquanto todos os outros abençoavam.
E os critérios para receber o Nome de 42 Letras eram severos: alguém sem ego, completamente humilde, que não se irrita, que não se importa se zombam dele.
Como o Rav Berg sempre lembrava: yodea, saber, nunca significou ter a informação. Todos nós temos as letras impressas. Quase nenhum de nós tem a conexão.
Aqui está a correção mais prática de toda a aula. A maioria das preces pede: dá-me cura, dá-me sustento. O Ana BeKo'ach não pede nada.
Ele é a forma mais poderosa de chamar a Luz do Criador. Por isso, ao terminar os sete versos, dizemos em silêncio Baruch Shem kevod malchutô. Porque acabamos de dizer um Nome, não uma prece. E baruch não significa "bendito": significa cheio de Luz e de bênçãos.
"Eu peço à Luz que resolva isto para mim."
"Eu chamo a totalidade da Luz do Criador para dentro deste mundo."
Sete versos, seis letras em cada. O Maharal explica: o seis representa a totalidade do mundo físico (norte, sul, leste, oeste, acima, abaixo). O sete representa os Sheva Reki'im, os sete céus, o Mundo Superior.
Michael Berg diz então a frase que sustenta a aula inteira: nosso maior problema, individual e coletivo, é que este mundo está desconectado da sua fonte.
O trabalho do Ana BeKo'ach é exatamente esse: sete vezes, pegar os seis cantos do mundo físico e reconectá-los ao Mundo Superior. Toda a cura, toda a remoção do caos, é consequência disso.
O último ato de ensino de Moshe é estranho: ele fala de seis cidades de refúgio e mais 42, uma lei que só seria usada muitos anos depois de sua morte. Por que gastar as últimas palavras com isso?
Porque não é sobre cidades. A pessoa que tira a vida de outra, mesmo sem intenção, representa o grau máximo de desconexão da Luz do Criador. É um código. E Moshe está dizendo: mesmo para o mais desconectado dos seres humanos, existe um caminho de volta, e ele tem 42.
O início da porção são as 42 paradas. O fim são as 42 cidades de refúgio. Entre os dois, Moshe traz para o nosso mundo o acesso às 42 Letras.
As cidades de refúgio só serviam a quem estava correndo. Quem ficava sentado em casa não era salvo por elas. E é aí que Michael Berg entrega as condições reais de uso do Nome.
Primeira: o primeiro verso já diz tudo. Ana BeKo'ach, Guedulat Yeminechá, Tatir Tzerurá. "Por favor, com a força da Tua grandeza, liberte os que estão presos." Os presos somos nós. E como saber se você está desconectado? Se você não é feliz a cada segundo do dia, você está desconectado, na exata medida em que não é.
Segunda: é preciso estar em movimento. Não basta dizer as letras confortavelmente, entre um compromisso e outro, esperando que "talvez ajudem".
O Gaon de Vilna revela que o valor numérico do primeiro verso e do último do Ana BeKo'ach é o mesmo da palavra tola'at, verme. E o Midrash cita Yeshayahu (Isaías): "não temas, verme de Yaakov".
Por que comparar os que se conectam à Luz do Criador a um verme? Porque o verme parece pequeno e frágil, mas, com o tempo, derruba as árvores mais fortes. E porque o verme só avança pela boca. Se não estiver comendo, não sai do lugar.
É a imagem de nós mesmos. Nossa única força, o nosso único modo de avançar, é a boca: o Ana BeKo'ach. Por isso Moshe o guardou para o fim. Não é uma ferramenta entre outras. É a ferramenta.
Ele fecha a aula com uma imagem que vale carregar: depois de um dia inteiro de esqui, a montanha fica cheia de sulcos e marcas. Então vem a nevasca e tudo volta a ser liso. É isso que este Shabat oferece: apagar todos os sulcos antigos, todo o entendimento velho que temos do Ana BeKo'ach, e começar do zero.
Se eu realmente acreditasse que o Ana BeKo'ach é o único caminho de volta, com que urgência eu o diria hoje?
Palestra original: Michael Berg, Matot-Masei · Acessando o Nome de 42 Letras (Shabat, 10 de julho de 2021) · Kabbalah Centre. Esta página é uma síntese e adaptação em português por Thiago Moshe, não uma transcrição. As falas em destaque são paráfrases do professor, não citações literais.
Fontes textuais citadas na própria palestra: a porção de Masei; o comentário do Ramban (Rav Moshe ben Nachman) e de Rashi; o Talmud (Kidushin, sobre o Nome de 42 Letras e a Bênção dos Kohanim); o Maharal (seis e sete); o Gaon de Vilna e o Midrash sobre tola'at Yaakov (Yeshayahu / Isaías).
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