O ensinamento de Karen Berg sobre por que os lugares
mais difíceis da sua vida foram fechados de propósito
Esta página é uma síntese da aula de Karen Berg para o Shabat Shuvá, o Shabat que fica entre Rosh Hashaná e Yom Kipur. Ela parte de uma ideia de Rav Ashlag que muda o jeito de olhar para tudo o que não abriu na sua vida. Existem lugares que parecem trancados. E eles estão trancados de propósito.
A aula inteira gira em torno de um único giro de consciência. A turbulência que chega na vida de uma pessoa decente não é a conta de algo que ela fez este ano. É a tranca que ela precisa atravessar para limpar o que ainda está incrustado nela. Karen Berg não responde a pergunta com teoria, ela responde com uma história.
Karen Berg começa situando o dia. Este é o Shabat logo depois de Rosh Hashaná, e ela diz que é um Shabat importante por um motivo bem concreto. Em Rosh Hashaná aprendemos que o shofar age como um laser, rasgando literalmente a nós e às negatividades que cometemos. Isso nos deixa em um lugar novo, de onde dá para ver como serão os próximos dez dias.
E há uma coisa que muda tudo nesta semana. O julgamento ainda está em aberto. O que foi escrito em Rosh Hashaná pode permanecer para cada um de nós, ou pode ser mudado pelas nossas ações nos dez dias que vão até Yom Kipur. Não é uma semana de espera. É a janela em que a decisão ainda está sendo tomada.
O que a maioria de nós pede nesta época, diz ela, é um período mais fácil. Pedimos para conseguir ver a nossa situação com clareza, para saber aonde devemos ir, o que poderíamos fazer e o que deveríamos fazer. É um pedido honesto. E é aí que ela traz Rav Ashlag, que fala de uma coisa muito diferente.
Existem lugares que parecem estar trancados para nós. E o motivo de estarem trancados, ensina ele, é para que sejamos forçados a atravessar a barreira. Quando entramos por essa barreira, recebemos toda a energia que existe dentro dela. A tranca não é um obstáculo colocado no caminho da energia. A tranca é onde a energia está guardada.
São essas as coisas que nos pressionam e nos levam a avançar. É por isso que aquilo que acontece na nossa vida às vezes parece triste, deprimente e tão difícil. A dificuldade não está ali apesar do crescimento. Ela é o formato que o crescimento tem.
Está escrito algo lindo na porção desta semana, diz ela. Quando plantamos as sementes na terra, elas ficam cobertas de lama e de terra. Só quando são tocadas pela chuva e conseguem se abrir é que rompem a terra, viram grama e, por fim, se tornam frutos. O mesmo vale para nós.
A semente não é enterrada por acidente, e não é enterrada como castigo. Ela é enterrada porque é lá embaixo, no escuro, coberta, que ela ganha a força de romper. E quanto maior é a dificuldade que conseguimos atravessar, mais alto podemos chegar no próximo nível. O mesmo vale para a quantidade que recebemos.
Aqui Karen Berg faz uma coisa que poucos professores fazem. Ela não passa por cima da objeção. Ela a diz em voz alta, do jeito que ela realmente soa dentro da gente: "Eu fiz tantas coisas. Sou uma pessoa muito decente e compartilho quando posso. Por que eu mereço passar por essa turbulência que tantas vezes nos alcança na vida?"
É a pergunta mais honesta que existe nesta época do ano, e é a que quase ninguém faz em voz alta porque parece pouco espiritual fazê-la. A resposta dela não é um argumento. Ela diz que contou uma história na semana anterior, em Los Angeles, e recomeça por ali.
Um homem foi até o Baal Shem Tov e disse que a vida dele era uma bagunça. A família, o negócio, tudo o que ele via ao redor. E ele não sabia por quê, porque tinha passado a vida inteira sendo uma pessoa decente, fazendo coisas boas pelos outros, generoso e gentil. O Baal Shem Tov olhou para ele e mandou que viajasse até uma certa cidade e procurasse por uma certa pessoa.
Três dias de viagem. Quando chegou, perguntou por aquela pessoa e ninguém parecia conhecê-la. Era como se ela nunca tivesse existido. Até que um homem se lembrou: há um senhor que morava aqui e ainda mora, com mais de cem anos. Se alguém conhece essa pessoa, é ele.
O velho cuspiu no chão. "Nunca mais mencione o nome dele. Ele foi o pior ser humano que já viveu aqui. Era mesquinho, era amargo, era insensível. No funeral dele, metade da cidade nem apareceu." O homem voltou ao seu mestre sem nada, e o mestre perguntou o que ele tinha encontrado. "Não encontrei nada. Ele está morto há muitos anos, e dizem que foi um ser humano horrível, que não se importava com ninguém." E o mestre perguntou: "Você não aprendeu nada com isso?"
E é por isso, diz ela, que tudo o que estava acontecendo e invadindo a vida daquele homem eram testes. Eram as trancas que ele precisava atravessar para lavar e limpar as partes dele ainda incrustadas naquela negatividade. Nós não somos tão elevados, e por isso muitas vezes não enxergamos a crosta da nossa própria vida.
Eu fiz tudo certo e a minha vida é uma bagunça. Isso é castigo, e é injusto. Alguém em algum lugar está cobrando de mim uma conta que não é minha.
Este é o portão que eu vim atravessar. Do outro lado está a parte de mim que ainda não foi limpa, e junto com ela toda a energia que ela está guardando.
Uma vez por ano, com o toque do shofar em Rosh Hashaná, temos a oportunidade de mudar e alterar o nosso destino, de entrar em outro espaço. E aqui ela tira o peso de cima de todo mundo: ninguém está nos pedindo para virarmos anjos, porque todos nós vamos cair. Todos nós cometeremos ações negativas. A pergunta é até onde vamos.
A negatividade, diz ela, é o que oferecemos para conseguir alcançar a energia da Luz do Criador. Essa é a polaridade da vida. E vem junto uma garantia que vale guardar: nunca recebemos mais do que a nossa capacidade de mudar.
Ela acrescenta uma prova que vem do corpo. Quando encerramos Rosh Hashaná, não somos mais os mesmos, embora nos sintamos iguais e pareçamos iguais. Como saber que é verdade? A cada sete anos o corpo inteiro muda. Os pulmões, o fígado, tudo muda. A gente insiste em dizer "eu continuo sendo eu mesmo, eu me lembro de onde estive". Mas muda.
Esta porção, Ha'azinu, é o poema e a canção que Moshe canta, e ela é a união entre a Coluna da Direita e a Coluna da Esquerda. Karen Berg lembra que existem dez canções, ou shirim, nos ensinamentos, e que está escrito que a última será cantada na hora da Redenção. Ela diz que estamos muito perto, e que sabe disso porque consegue ver o caos que nos cerca.
Quando Moshe fala ao céu e à terra, o que ele está dizendo é: estou falando ao seu corpo e estou falando à sua alma, e peço que ambos testemunhem. O motivo de chamar os dois é que o corpo está cheio dos próprios desejos. O corpo precisa de tantas coisas que a alma diz "não posso ir aí, não quero ir aí".
E é aí que ela nomeia a luta em uma frase que qualquer pessoa reconhece: a luta entre o que eu preciso fazer e o que eu quero fazer. Muitas vezes o querer supera o precisar, e nos encontramos numa situação em que é muito difícil amar além de nós mesmos.
Desde o primeiro dia da Criação existe o Desejo de Receber Somente para Si Mesmo. Está escrito que ele foi criado Yesh Me'Ayin, algo a partir do nada, e é a única coisa que não existia dentro do Criador. O nosso propósito não é apagá-lo. É transformá-lo, por mais forte ou difícil que ele seja, e trazê-lo para um lugar onde possamos usá-lo a serviço da humanidade.
Isso começa em um lugar pequeno. Se reconhecermos as nossas negatividades, se reconhecermos o que precisamos mudar, começamos justamente por essa consciência. E nessa consciência já temos a capacidade de transformá-lo e usá-lo para o bem comum. Estamos todos longe do nível de Moshe, mas podemos ser nós mesmos. No momento final, diz ela, os anjos lá em cima não pedem que sejamos Moshe. Eles só pedem que sejamos nós mesmos.
E vem o aviso, que é a parte mais dura da aula. Se não alcançamos esse potencial, se não decidimos que esta é uma grande abertura cósmica e voltamos para casa fazendo as mesmas coisas de sempre, então aqueles anjos que destruímos em Rosh Hashaná voltam direto. Todos eles encontram o caminho de volta para dentro de nós. E aí, sem perceber, vamos devagar, devagar, cada vez mais longe da energia positiva, até o ponto em que nem percebemos o quão longe fomos.
Qual é o portão que eu venho contornando há anos, e o que é que está guardado lá dentro esperando só que eu atravesse?
Aula original: Karen Berg, conexão de Shabat Shuvá para a porção Ha'azinu, Kabbalah Centre. A data da aula não consta na transcrição usada para esta página. Esta página é uma síntese em voz própria de Thiago Moshe, não uma transcrição. As frases entre aspas são paráfrases das falas da aula, não citações literais.
Fontes citadas na aula: a porção Ha'azinu, o poema e a canção de Moshe · o ensinamento de Rav Ashlag sobre os lugares trancados e a energia guardada dentro da barreira · a história do Baal Shem Tov, contada por Karen Berg · a imagem da semente coberta de terra, na porção da semana · as dez canções, ou shirim, e a canção da Redenção · Yesh Me'Ayin, algo a partir do nada, e o Desejo de Receber Somente para Si Mesmo. Ao final da aula Karen Berg passa a palavra para Michael Berg falar sobre Ha'azinu, e essa parte não está incluída aqui.
Toda semana eu envio os destaques da porção, a prática e os links das aulas. Sem barulho, uma mensagem por semana.
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