Para Rodrigo,
que começa agora a se envolver
Rodrigo, esta página é um presente para o momento em que você começa a usar o talit. Ela reúne duas aulas sobre o mesmo tesouro, o talit como a Luz do Criador que nos envolve, e os tzitzit como os fios por onde essa Luz espia por entre cada ocultamento deste mundo.
Kanaf é a ponta da veste, e também asa, cobertura, ocultamento. Os quatro cantos representam as formas de escuridão deste mundo. Tzitzit vem de florescer, brotar e de espiar por entre a treliça: a Luz do Criador que de repente se mostra por entre cada ocultamento. Amarramos os fios justamente nas pontas, a resposta plantada bem no lugar da escuridão.
Há um verso nos Salmos, Oteh or kasalmá, que diz que o Criador Se envolve em Luz como quem veste uma roupa. É essa a imagem que abre as duas aulas.
Quando você se enrola no talit, não está apenas usando um tecido: está se envolvendo em Luz, imitando o próprio gesto do Criador. É isto que se visualiza ao cobrir a cabeça e os ombros, estou vestindo a Luz do Criador.
Há dois talitot. O talit katan (os tzitzit que se usam por baixo da roupa, o dia inteiro) carrega a Luz interior, proteção que nos acompanha, estejamos ou não orando.
O talit gadol, o que chamamos simplesmente de talit, é usado na oração e se enrola ao nosso redor. Toda cobertura representa a Ohr Makif, a Luz Circundante. Uma Luz nos preenche por dentro; a outra nos envolve por fora.
A Ohr Makif é a parte do Criador que está além do nosso entendimento, insondável. Não a alcançamos pelo intelecto, mas pela confiança. E é exatamente aí que nos envolvemos no talit.
Quando a vida traz o que não conseguimos compreender, envolver-se no talit é dizer: não entendo, mas estou envolvido por Ti. Como um pai que abraça o filho no momento difícil, a Luz do Criador nos abraça sem exigir que entendamos.
Por que a obrigação nasce justamente numa veste de quatro pontas? Porque kanaf, a ponta, significa também cobertura, ocultamento. A ponta é a borda, o fim, o "estou encurralado".
Os quatro cantos da veste espelham os quatro cantos da Terra: as muitas formas de escuridão, dificuldade e falta de clareza deste mundo físico, inclusive a falta de clareza sobre nós mesmos. Se nos conectamos só a esse ocultamento, a consciência desce e passamos a ver apenas a matéria.
Se a ponta é o ocultamento, os tzitzit são o antídoto. Tzitzit quer dizer florescer, brotar, e vem da expressão Metzitz min hacharakim: espiar por entre a treliça, por entre as frestas.
Usar os tzitzit é declarar que a Luz do Criador permeia cada um dos quatro ocultamentos. Não há canto do mundo, nem escuridão, nem dor, nem incerteza, onde o Criador não esteja. É o sentido de o Criador é Um: por trás de toda aparência de separação, uma só Luz.
Da Luz Circundante descem os fios. Se o talit é a Luz que não alcançamos, os tzitzit são essa mesma Luz contraída, na Kabbalah, o tzimtzum, reduzida a algo que podemos segurar. Como um professor que traz uma ideia imensa para o nível do aluno.
Por isso os fios carregam os 613 preceitos: a palavra tzitzit soma 600, mais os 5 nós e os 8 fios. Cada mandamento é um fio elétrico, um canal por onde a Luz desce até nós, a maneira concreta de nos conectarmos ao Criador.
A Torah diz: "e vós o vereis". A verdadeira mitzvá dos tzitzit não é só usá-los, é olhar para eles e lembrar. Olhar para não seguir cegamente o coração e os olhos, que correm atrás do exterior.
Este é um mundo de superfície. Os tzitzit nos treinam a enxergar mais fundo, a alma por trás do rosto, a Luz por trás da matéria. Não seguir os olhos, mas seguir a voz da alma: é para isso que se olha.
Você não precisa saber todos os segredos do talit para receber sua Luz. Basta uma consciência simples e poderosa, antes de vestir: faço este ato para unir os mundos superior e inferior e revelar Luz no mundo.
Ao envolver a cabeça, desperte para a Ohr Makif, o seu potencial maior, infinito, que ainda está fora de você, e traga-o para perto. Depois traga o talit sobre o corpo. Rodrigo, cada vez que você fizer isso, estará vestindo Luz e trazendo o seu maior potencial para dentro do dia.
Se o talit é a Luz do Criador me abraçando, onde, hoje, eu preciso confiar no abraço que ainda não consigo compreender?
Fontes: duas aulas sobre a Kabbalah do Talit, Yosef Yeshurun (curso Work of the Heart, Kabbalah Centre) e Rabi Avrohom Plotkin. Síntese e adaptação por Thiago Moshe · Insights Kabalísticos.
As frases em destaque são paráfrases das aulas, não transcrições literais. O verso Oteh or kasalmá ("Ele Se envolve em Luz como uma veste") é dos Salmos; os valores numéricos dos tzitzit e a leitura de kanaf / tzitzit seguem o Zohar e os comentários citados pelos professores (entre eles o Maor Enaim).