Monica Berg sobre desejo, arrependimento e a vida que está acontecendo agora
Monica Berg abre com uma pergunta que parece simples: quem define uma vida significativa? Ao acompanhar o filho Josh tocando violão sem se preocupar com talento ou resultado, ela percebe quanto da nossa alegria foi entregue à necessidade de transformar tudo em conquista. Rosh Hashaná nos chama de volta à fonte do desejo e à vida que já está aqui.
Desejar faz parte da alma, mas um desejo não realizado não precisa virar fracasso. Monica Berg ensina a soltar a forma exata que imaginamos e conservar a energia viva que estava dentro dela. Essa energia pode alimentar outra porta, outro gesto e outra forma de amar.
Monica Berg começa com uma pergunta que costumamos responder depressa demais: quem decide o que torna uma vida significativa? A cultura oferece medidas conhecidas, como reconhecimento, talento, marcos alcançados na idade esperada e admiração. Quando Josh nasceu, ela também olhou para o futuro dele através dessas lentes e do medo.
Vinte e quatro anos depois, a vida de Josh expõe a limitação dessas medidas. Seu valor não depende da maneira como é percebido nem de uma lista de conquistas. Ele cria significado por meio da presença, da curiosidade e da alegria com que encontra as pessoas. A pergunta importante deixa de ser “O que realizei?” e se torna “O que meus pensamentos, palavras e ações despertam na vida?”
Josh toca violão de corpo e alma, embora não domine os acordes como sua irmã. Para ele, a experiência já tem valor porque o faz feliz. Monica percebe então uma limitação em si mesma: ela evitava atividades nas quais não pudesse ser boa, alcançar sucesso ou construir uma carreira.
Quando competência vira condição para participar, reduzimos a vida ao território em que já sabemos vencer. Perdemos o espaço da descoberta, do jogo e da expressão que não precisa provar nada. Fazer algo porque desperta vida dentro de nós também é um resultado. Talvez seja um dos poucos resultados que podem ser recebidos enquanto a experiência acontece.
Pintar logo provoca a pergunta sobre vender. Cantar leva alguém a perguntar quando será publicado. Escrever parece exigir um livro. Monica Berg descreve uma cultura que converte expressão em produção e mede até a alegria pelo resultado que ela pode gerar.
A história do rei David oferece outra imagem. Ele dança diante do Criador, apesar do desprezo de Michal, porque sua alegria precisa encontrar expressão. O gesto não pede aprovação, audiência ou utilidade. Há momentos em que cantar, dançar, pintar ou escrever servem para devolver movimento à alma. Quando todo prazer precisa justificar sua existência, esquecemos que estar vivo já é uma razão.
Monica Berg ensina que os kabalistas identificam o desejo com a própria alma. Um bebê deseja tudo o que vê porque ainda não aprendeu a estreitar essa força. Com o tempo, começamos a direcioná-la para objetos, resultados e imagens que talvez não nos sirvam. A energia é verdadeira, mesmo quando o destino escolhido para ela é pequeno demais.
Por isso, sentir falta não precisa significar que existe algo errado com nossa capacidade de desejar. A falta pode mostrar que uma energia poderosa foi colocada onde já não consegue circular. O trabalho não é destruir o desejo. É perguntar o que ele procurava em essência e permitir que essa força encontre uma expressão mais ampla.
Monica Berg usa a imagem do Criador como uma montanha e de cada alma como uma pequena pedra que pertence a ela. Ao seguir nosso caminho, esquecemos a origem e passamos a experimentar nossos desejos como sinais de separação: falta isto, perdi aquilo, ainda não alcancei o que deveria.
Rosh Hashaná oferece uma volta à origem. Levar o desejo de volta à montanha significa colocá-lo diante da bondade e da abundância das quais a alma faz parte. O desejo deixa de ser uma acusação contra a vida e volta a ser um ponto de conexão. Talvez sua forma ainda não esteja clara, mas sua fonte já não precisa ser esquecida.
Ao chamar os brasileiros na plateia, Monica Berg encontra em saudade uma palavra para o desejo que permanece mesmo sem expectativa de realização. A história que ela conta contém dor, mas também doçura. O que não aconteceu continua revelando uma capacidade de amar.
Nem todo desejo não realizado é um fracasso, e nem todo anseio precisa desaparecer para que a vida continue. A saudade pode se tornar combustível quando separamos a energia da forma que ela perdeu. O amor ainda pode cuidar. A criatividade ainda pode produzir algo. A ternura ainda pode alcançar alguém. O objeto não retorna, mas a qualidade da alma contida no desejo continua disponível.
Monica Berg conta que voltou a uma oportunidade perdida e fez tudo o que podia no mundo físico para recuperá-la. Entregou seu 1%, atravessou angústia e dor, mas o resultado desejado não aconteceu. O esforço, porém, revelou que seu pesar mais profundo não era apenas ter perdido a oportunidade. Era não ter confiado no Criador quando tomou a decisão.
Ela não conseguiu reabrir o passado, mas refez uma relação no presente. O arrependimento deixou de ser uma sentença sobre quem ela era e virou uma passagem para a confiança. Nem sempre recebemos a chance de repetir a mesma escolha. Podemos, contudo, construir agora a consciência que gostaríamos de ter levado àquela escolha.
Podemos passar anos observando uma porta fechada e usando sua ausência como condição para adiar a alegria. Enquanto esperamos que a vida volte à forma imaginada, outras portas, relações e possibilidades surgem sem receber nossa atenção. A cantora da história de Monica queria dançar. Uma lesão fechou esse caminho, mas a música que havia gravado abriu outro.
Olhar a vista não apaga a dor nem transforma privação em ideal. É a escolha de permanecer presente ao que ainda existe. Monica termina com cenas pequenas: o sol no rosto, uma criança, um livro no quintal, a água diante de alguém que quase nada possui. A vida não começa depois do resultado. Ela está pedindo nossa presença agora.
Se eu soltasse a forma antiga, o que esta energia poderia criar agora?
Fonte: palestra de boas-vindas de Monica Berg em Rosh Hashaná 5787, transmitida ao vivo de Nova York pelo Kabbalah Centre em 11 de setembro de 2026. Síntese em voz própria de Thiago Moshe, feita a partir da transcrição original em inglês e dos subtítulos aprovados em português brasileiro. Esta página não é uma transcrição.
O centro usa duas formas hebraicas padrão escolhidas pelo editor para representar o movimento da palestra. Ratzon significa desejo; simcha significa alegria. Elas não são citações em hebraico de Monica Berg.
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