Insights Kabalísticos por Thiago Moshe
צְעָקָה
Porção Ki Tetze · Mês de Elul

O Grito da Alma

O ensinamento de Michael Berg
sobre a ferramenta mais poderosa de Elul

SHABAT KI TETZE · 6 de setembro de 2025 · 5785

Esta página é uma síntese da palestra de Michael Berg sobre a porção Ki Tetze. Ele abre um dos trechos mais estranhos da Torah e mostra que ali dentro está guardada a única ferramenta capaz de completar o nosso teshuvá antes de Rosh Hashaná. Não é a meditação. Não é a oração. É um grito que ninguém ouve.

O movimento da porção

Da palavra ao grito

שַׁוְעָה
Shav'a
a oração com palavras
צְעָקָה
Tza'aka
o grito sem palavras

O Zohar ensina que existem três formas de se conectar à Luz do Criador. Anachah, o pensamento de falta. Shav'a, as palavras da oração. E tza'aka, o grito primal da alma, que não tem palavra nem som. Rav Yehuda diz que a terceira é a mais poderosa das três. A porção desta semana existe para nos entregar exatamente essa.

Oito insights · o grito da alma
01

Um trecho que dá vergonha de ler

Michael Berg começa admitindo que normalmente não fala deste trecho. Uma jovem noiva, um homem que não é o seu noivo, um ataque, e um julgamento que, lido ao pé da letra, é indefensável. Ele diz que dá até vergonha falar dele.

O Rav sempre parava exatamente nesses trechos, e o Zohar repete a mesma coisa vezes sem conta: quem lê a Torah literalmente está lendo errado. A Torah não é livro de leis nem livro de história. É o Criador falando com você, individualmente, sobre a sua vida interior. Se um trecho parece absurdo, é sinal de que o segredo ali é grande.

"Você lê isto e é uma loucura. E é por causa dessas dificuldades todas que ficou claro que o segredo é ainda mais importante." Michael Berg
02

A na'arah é a sua alma

O Ari deixa claro que, sempre que a Torah diz "uma jovem", "uma mulher", ela está falando de cada uma das nossas almas. A leitura verdadeiramente literal, diz Michael Berg, é esta: a Torah está descrevendo a batalha entre a nossa alma e a força negativa deste mundo.

A na'arah, a mulher pura, é a alma. O ish, o homem que a encontra e a ataca, é o Oponente. Não é uma figura antiga nem um demônio: é a força que vem atacando você nos últimos trezentos e tantos dias, e em todos os anos da sua vida. Infelizmente, diz ele, muitas vezes ela consegue.

03

A culpa não foi o ataque. Foi não ter gritado

O texto tem dois cenários, e a diferença entre eles é uma coisa só. Na cidade, o verso pergunta qual é a culpa da mulher e responde: que ela não gritou. No campo aberto, onde não havia mais ninguém, ela gritou e ninguém veio socorrê-la, e nada acontece com ela.

Lido como mecânica espiritual, o quadro muda por completo. A alma é atacada nos dois casos. O que decide tudo é se houve um grito. Michael Berg observa que muitos de nós estudamos há anos e talvez nunca tenhamos entendido que o ápice do trabalho de Elul é chegar exatamente a isso.

04

Três formas de falar com a Luz do Criador

Para explicar o poder do grito, Michael Berg vai ao Zohar, na porção de Shemot. Rav Yitzhak ensina que há três formas de interagir com a Luz do Criador. Anachah é a dor sentida na mente, o pensamento de falta. Shav'a é quando a pessoa usa palavras, a oração que pede cura ou bênção. E tza'aka é o grito primal da alma.

Rav Ashlag acrescenta a estrutura: pensamento, voz e fala, cada uma correspondendo a uma das três Sefirot. E Rav Yehuda dá o veredito. Das três, a ferramenta mais poderosa que se pode usar é o grito. Meditação, oração e grito primal, nesta ordem crescente.

05

O grito mais poderoso é o que ninguém ouve

Há kabalistas que instituíram a prática de sair e gritar, às vezes indo até florestas, com base neste mesmo ensinamento. Michael Berg não diz que é erro, diz que tem o seu lugar. Mas não é disso que o Zohar está falando. O grito da alma está no coração, e não é algo que você possa ouvir.

Rav Ashlag explica o porquê, e o mecanismo é bonito. No instante em que algo é expresso para fora, neste mundo, as forças negativas podem se agarrar àquilo. Uma pessoa pode rezar por teshuvá o mês inteiro e conseguir alguma coisa, mas não a transformação completa, porque o que saiu pode ser tomado. O grito silencioso só se revela dentro do coração de quem grita. Não sobra nada para elas segurarem.

"Um grito que não tem voz, que não tem som, é mais aceito pelo Criador do que as palavras de oração ditas com a boca." Rav Ashlag, citado na palestra
06

A alma que deixa o corpo grita, e o mundo inteiro ouve

O Talmud ensina que há sons que são ouvidos no mundo inteiro, e um deles é o clamor da alma quando ela deixa o corpo. Michael Berg faz a pergunta óbvia: ninguém nunca ouviu esse grito com os ouvidos. Por que então os kabalistas o chamam de a voz mais alta, a que alcança tudo?

Porque naquele momento a pessoa tem mais desejo contra o que está acontecendo do que em qualquer outro instante da vida inteira, e nenhuma força para gritar. Um grito físico vai até certa distância e acaba. Um grito que não consegue sair está contido em toda parte.

E há uma segunda razão, mais dura. É o único momento de clareza real. A alma vê de uma vez quem ela era, a vida que viveu, tudo o que poderia ter feito e o pouco que fez. Não existe grito maior do que aquele.

07

Você deixou pedaços da sua alma gritando o ano inteiro

Aqui a palestra desce para a mesa de jantar. Você está com seis amigos. Alguém está sofrendo, alguém diz alguma coisa, e vem o pensamento: eu tenho algo para compartilhar que pode ajudar esta pessoa. Em seguida vem o outro pensamento: pode não ser bem recebido, podem achar estranho eu falar isso. E você não fala.

Naquele instante, diz Michael Berg, a sua alma está gritando. Você deixou naquela sala um pacote enorme de energia não revelada, um pedaço de você perguntando: por que você não me revelou? E foi assim o ano inteiro, em centenas, talvez milhares de lugares onde revelamos cinco por cento e deixamos noventa e cinco chorando ali.

O teshuvá que a maioria conhece

Olhar para trás e listar as cem coisas que fiz e não deveria ter feito, e tentar corrigir o que dá para corrigir. Palavras e ações são limitadas. Só chegam até certo ponto.

O teshuvá desta porção

A dor de não ter conhecido a mim mesmo, e de toda a Luz que a minha alma tinha para revelar este ano e que eu não revelei. É esse o foco principal.

08

O grito recolhe tudo de volta

Esta é a razão de a ferramenta ser essa e não outra. O grito da alma está em toda parte. Ele vai a cada lugar onde você esteve e não revelou o que era para revelar, e recolhe aquilo de volta. É assim, diz Michael Berg, que a negatividade do ano é removida, porque a negatividade do ano é exatamente isso: toda a Luz que você deveria ter revelado e deixou na escuridão.

O Zohar dá uma garantia junto. Rav Yehuda ensina que quem alcança e continua usando esta ferramenta remove o julgamento não só deste ano, mas de toda a sua vida e de todas as suas encarnações. Rav Yitzhak diz que este clamor reina sobre qualquer tipo de julgamento, e que a pessoa é elevada para fora de toda dificuldade.

Sinal de que está funcionando Se você está usando a ferramenta corretamente, ao final de cada sessão você não se sente esgotado. Se sente renovado, porque recolheu mais um pouco das oportunidades perdidas do ano.
A prática desta semana · o clamor silencioso

Cinco a dez minutos, todos os dias, até Rosh Hashaná

1
Sente sozinho, em silêncio. Não é meditação de consciência, não são palavras de oração, e nem mesmo ações. Michael Berg é explícito: nem mesmo ações. É reservar um tempo para entrar dentro de si.
2
Pense no ish, a força que te diminuiu. Aquilo que, o ano inteiro, fez você não entender quem você é e do que você é capaz. Pode ser vergonha, medo do que os outros vão achar, ou simplesmente não saber.
3
Traga lugares concretos. Aquele jantar, aquela conversa, aquele amigo que precisava de uma oração de cura. Não para se culpar, mas para ver onde você deixou um pedaço da sua alma chorando.
4
Deixe o coração chegar ao grito. Sem palavras e sem som. Não pelo que você fez de errado, isso é outra parte do trabalho. Pela Luz que você tinha para revelar e não revelou.
צַעֲקַת הַלֵּב Tza'akat halev · o clamor do coração
5
Deixe o grito viajar. Ele vai a todos os lugares onde você esteve neste ano e recolhe de volta a Luz da sua alma que ficou ali. É esse o trabalho, e é ele que remove o julgamento.
6
Repita amanhã. Uma vez não basta. Michael Berg pede que seja todos os dias, nas semanas que restam de Elul, para chegarmos a Rosh Hashaná como o Recipiente que sempre fomos de verdade e nunca compreendemos.

Se a minha alma tivesse voz agora, em quantos lugares deste ano ela ainda estaria perguntando: por que você não me revelou?

Palestra original: Michael Berg, conexão de Shabat da porção Ki Tetze, Kabbalah Centre, 6 de setembro de 2025. Esta página é uma síntese em voz própria de Thiago Moshe, não uma transcrição. As frases entre aspas são paráfrases das falas da palestra, não citações literais.

Fontes textuais citadas na palestra: a porção Ki Tetze (Deuteronômio 22, versos 23 a 27) · o Zohar, porção de Shemot, com os ensinamentos de Rav Yitzhak e Rav Yehuda sobre anachah, shav'a e tza'aka · o comentário de Rav Ashlag sobre pensamento, voz e fala · o Talmud, conforme citado por Michael Berg, sobre o clamor da alma ao deixar o corpo · e os escritos do Ari sobre "a jovem" como a alma. As passagens em hebraico e aramaico foram lidas na palestra e não estão reproduzidas aqui.

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Com amor e Luz,
Thiago Moshe