O ensinamento de Michael Berg
sobre a ferramenta mais poderosa de Elul
Esta página é uma síntese da palestra de Michael Berg sobre a porção Ki Tetze. Ele abre um dos trechos mais estranhos da Torah e mostra que ali dentro está guardada a única ferramenta capaz de completar o nosso teshuvá antes de Rosh Hashaná. Não é a meditação. Não é a oração. É um grito que ninguém ouve.
O Zohar ensina que existem três formas de se conectar à Luz do Criador. Anachah, o pensamento de falta. Shav'a, as palavras da oração. E tza'aka, o grito primal da alma, que não tem palavra nem som. Rav Yehuda diz que a terceira é a mais poderosa das três. A porção desta semana existe para nos entregar exatamente essa.
Michael Berg começa admitindo que normalmente não fala deste trecho. Uma jovem noiva, um homem que não é o seu noivo, um ataque, e um julgamento que, lido ao pé da letra, é indefensável. Ele diz que dá até vergonha falar dele.
O Rav sempre parava exatamente nesses trechos, e o Zohar repete a mesma coisa vezes sem conta: quem lê a Torah literalmente está lendo errado. A Torah não é livro de leis nem livro de história. É o Criador falando com você, individualmente, sobre a sua vida interior. Se um trecho parece absurdo, é sinal de que o segredo ali é grande.
O Ari deixa claro que, sempre que a Torah diz "uma jovem", "uma mulher", ela está falando de cada uma das nossas almas. A leitura verdadeiramente literal, diz Michael Berg, é esta: a Torah está descrevendo a batalha entre a nossa alma e a força negativa deste mundo.
A na'arah, a mulher pura, é a alma. O ish, o homem que a encontra e a ataca, é o Oponente. Não é uma figura antiga nem um demônio: é a força que vem atacando você nos últimos trezentos e tantos dias, e em todos os anos da sua vida. Infelizmente, diz ele, muitas vezes ela consegue.
O texto tem dois cenários, e a diferença entre eles é uma coisa só. Na cidade, o verso pergunta qual é a culpa da mulher e responde: que ela não gritou. No campo aberto, onde não havia mais ninguém, ela gritou e ninguém veio socorrê-la, e nada acontece com ela.
Lido como mecânica espiritual, o quadro muda por completo. A alma é atacada nos dois casos. O que decide tudo é se houve um grito. Michael Berg observa que muitos de nós estudamos há anos e talvez nunca tenhamos entendido que o ápice do trabalho de Elul é chegar exatamente a isso.
Para explicar o poder do grito, Michael Berg vai ao Zohar, na porção de Shemot. Rav Yitzhak ensina que há três formas de interagir com a Luz do Criador. Anachah é a dor sentida na mente, o pensamento de falta. Shav'a é quando a pessoa usa palavras, a oração que pede cura ou bênção. E tza'aka é o grito primal da alma.
Rav Ashlag acrescenta a estrutura: pensamento, voz e fala, cada uma correspondendo a uma das três Sefirot. E Rav Yehuda dá o veredito. Das três, a ferramenta mais poderosa que se pode usar é o grito. Meditação, oração e grito primal, nesta ordem crescente.
Há kabalistas que instituíram a prática de sair e gritar, às vezes indo até florestas, com base neste mesmo ensinamento. Michael Berg não diz que é erro, diz que tem o seu lugar. Mas não é disso que o Zohar está falando. O grito da alma está no coração, e não é algo que você possa ouvir.
Rav Ashlag explica o porquê, e o mecanismo é bonito. No instante em que algo é expresso para fora, neste mundo, as forças negativas podem se agarrar àquilo. Uma pessoa pode rezar por teshuvá o mês inteiro e conseguir alguma coisa, mas não a transformação completa, porque o que saiu pode ser tomado. O grito silencioso só se revela dentro do coração de quem grita. Não sobra nada para elas segurarem.
O Talmud ensina que há sons que são ouvidos no mundo inteiro, e um deles é o clamor da alma quando ela deixa o corpo. Michael Berg faz a pergunta óbvia: ninguém nunca ouviu esse grito com os ouvidos. Por que então os kabalistas o chamam de a voz mais alta, a que alcança tudo?
Porque naquele momento a pessoa tem mais desejo contra o que está acontecendo do que em qualquer outro instante da vida inteira, e nenhuma força para gritar. Um grito físico vai até certa distância e acaba. Um grito que não consegue sair está contido em toda parte.
E há uma segunda razão, mais dura. É o único momento de clareza real. A alma vê de uma vez quem ela era, a vida que viveu, tudo o que poderia ter feito e o pouco que fez. Não existe grito maior do que aquele.
Aqui a palestra desce para a mesa de jantar. Você está com seis amigos. Alguém está sofrendo, alguém diz alguma coisa, e vem o pensamento: eu tenho algo para compartilhar que pode ajudar esta pessoa. Em seguida vem o outro pensamento: pode não ser bem recebido, podem achar estranho eu falar isso. E você não fala.
Naquele instante, diz Michael Berg, a sua alma está gritando. Você deixou naquela sala um pacote enorme de energia não revelada, um pedaço de você perguntando: por que você não me revelou? E foi assim o ano inteiro, em centenas, talvez milhares de lugares onde revelamos cinco por cento e deixamos noventa e cinco chorando ali.
Olhar para trás e listar as cem coisas que fiz e não deveria ter feito, e tentar corrigir o que dá para corrigir. Palavras e ações são limitadas. Só chegam até certo ponto.
A dor de não ter conhecido a mim mesmo, e de toda a Luz que a minha alma tinha para revelar este ano e que eu não revelei. É esse o foco principal.
Esta é a razão de a ferramenta ser essa e não outra. O grito da alma está em toda parte. Ele vai a cada lugar onde você esteve e não revelou o que era para revelar, e recolhe aquilo de volta. É assim, diz Michael Berg, que a negatividade do ano é removida, porque a negatividade do ano é exatamente isso: toda a Luz que você deveria ter revelado e deixou na escuridão.
O Zohar dá uma garantia junto. Rav Yehuda ensina que quem alcança e continua usando esta ferramenta remove o julgamento não só deste ano, mas de toda a sua vida e de todas as suas encarnações. Rav Yitzhak diz que este clamor reina sobre qualquer tipo de julgamento, e que a pessoa é elevada para fora de toda dificuldade.
Se a minha alma tivesse voz agora, em quantos lugares deste ano ela ainda estaria perguntando: por que você não me revelou?
Palestra original: Michael Berg, conexão de Shabat da porção Ki Tetze, Kabbalah Centre, 6 de setembro de 2025. Esta página é uma síntese em voz própria de Thiago Moshe, não uma transcrição. As frases entre aspas são paráfrases das falas da palestra, não citações literais.
Fontes textuais citadas na palestra: a porção Ki Tetze (Deuteronômio 22, versos 23 a 27) · o Zohar, porção de Shemot, com os ensinamentos de Rav Yitzhak e Rav Yehuda sobre anachah, shav'a e tza'aka · o comentário de Rav Ashlag sobre pensamento, voz e fala · o Talmud, conforme citado por Michael Berg, sobre o clamor da alma ao deixar o corpo · e os escritos do Ari sobre "a jovem" como a alma. As passagens em hebraico e aramaico foram lidas na palestra e não estão reproduzidas aqui.
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