No relacionamento
No primeiro dia você amava. Na quinta semana, no quinto ano, no trigésimo ano, ainda é amor, mas já não é o que era, e você para de notar.
Uma letra que falta em toda a história dos primeiros frutos, o círculo que nunca deixa nada de novo entrar, e a porta que o Criador abre para você a cada instante.

A porção de Ki Tavo abre com o mandamento dos Bikurim, os primeiros frutos. Você desce ao seu campo em Israel, vê o primeiro figo, a primeira tâmara que amadureceu naquele ano, amarra um barbante nela e a leva ao Templo em Jerusalém, dentro de uma cesta chamada tene.
Michael Berg começa pela leitura de um dos grandes kabalistas, o Baal Ha-Turim, que repara em algo estranho. A palavra tene, cesta, tem valor numérico 60, a gematria exata da letra Samech. E a letra Samech, sozinha entre as vinte e duas letras do alfabeto hebraico, não aparece nenhuma vez em toda a história dos Bikurim. O Baal Ha-Turim promete que, com a ajuda do Criador, entenderemos o porquê. Mas não explica ali.
Para puxar esse fio, Michael Berg volta ao Midrash sobre a Criação. A primeira vez que a letra Samech aparece na Torah, ensina o Midrash em nome de Rabi Chanina Bar Idi, é exatamente no momento em que Eva é criada, quando o primeiro casal se torna consciente. E é com essa letra que nasce a força chamada Satan. Toda a dor e a escuridão deste mundo começam ali.
Os kabalistas explicam por quê. De todo o alfabeto antigo, o Samech é a única letra circular. E um círculo tem uma propriedade que nenhuma outra forma geométrica tem. Se você está desenhando um quadrado ou um triângulo, decide a cada linha para onde vai. Um círculo perfeito, não. A primeira curva que você traça já determina exatamente todo o resto do círculo. Nada de novo pode entrar nele.
Esse é o mundo em que a maioria de nós vive. Você volta ao mesmo restaurante e gosta de como fazem o frango, come hoje e vai comer amanhã, talvez um pouco diferente, mas basicamente o mesmo. Um dia segue o outro. Hoje faz sol, amanhã pode chover, mas por dentro a vida continua girando no mesmo círculo.
E o mais perigoso é que a sensação não é ruim. Você gosta do seu frango, gosta do seu dia, aprecia o sol. É bom. É exatamente por isso que é a armadilha mortal do Satan: ela não dói.
No primeiro dia você amava. Na quinta semana, no quinto ano, no trigésimo ano, ainda é amor, mas já não é o que era, e você para de notar.
Você lembra do primeiro instante em que os viu. Depois eles crescem, e sem perceber você deixa de se conectar àquele primeiro amor.
Você faz a mesma conexão de sempre, um pouco melhor, um pouco pior, mas já sabe qual será o próximo passo, e o seguinte.
Você ouve a leitura como ouviu na semana passada, e vai ouvi-la de novo na próxima. Não é nada, mas não é o propósito.
Contra o círculo, a Torah abre com uma única palavra: Beresheet, "no princípio". Resheet significa começo, algo novo, e é por isso, ensinam os kabalistas, que essa palavra quase não aparece em nenhuma outra porção, mas volta repetidas vezes na porção desta semana.
O Rei Salomão dá a chave prática, em Provérbios: Ashrei Adam Shomeia Li, Lishkod al Daltotai Yom Yom, abençoado quem escuta a minha voz, que vigia às minhas portas todos os dias. Michael Berg explica: não é sobre ficar fisicamente parado numa porta. É perceber que, a cada instante, existem dois Shabats possíveis, duas orações possíveis, duas conversas possíveis com quem você ama. Uma continua o círculo. A outra é um portal para uma experiência completamente nova, que o Criador já preparou, esperando que você a escolha.
Pense no fazendeiro e no primeiro figo. Ele não o come. Ele o carrega por cinco semanas até Jerusalém, porque aquele figo carrega dentro dele a energia do novo, e o novo é a coisa mais preciosa e mais difícil de encontrar neste mundo. A prática desta semana é a mesma escolha, em pequeno, todos os dias.