A única coisa que o Criador
pede de você
Esta página é uma síntese da palestra de Michael Berg no Shabat de Ekev. Ele parte de um único verso da porção e chega a uma afirmação difícil de ouvir: toda falta que você vive hoje começa no mesmo lugar, numa alma que ninguém acordou.
O verso pergunta מָה, mah: o que o Criador pede de você? Rav Meir ensina a não ler mah, e sim מֵאָה, me'ah. Cem. É a mesma palavra com uma letra a mais, e a pergunta se responde sozinha: cem bênçãos por dia.
E aqui Michael Berg dá o passo que muda tudo. Essas cem bênçãos não são cem palavras ditas na oração ou antes da comida. São cem momentos reais de apreciação, sentidos por dentro. É por isso que quase ninguém chega lá.
O verso de Ekev faz uma pergunta simples: o que o Criador pede de você? Rav Meir responde com um número. Cem bênçãos por dia, todos os dias, sem exceção.
Michael Berg avisa logo no início que a palestra inteira trata de um segredo só, com três segredos dentro dele. E ele já sabe o que vai acontecer com a gente quando ouvirmos.
A frase é linda até você virá-la do avesso, que é exatamente o que ele faz. Se viver isto elimina toda falta, então toda falta que você vive hoje vem de não estar vivendo isto. Não é uma promessa, é um diagnóstico.
O Talmud conta que, nos dias do Rei David, uma praga levava cem pessoas por dia. David reuniu o povo e disse que só havia um jeito de parar aquilo: cada um teria que despertar cem momentos de apreciação por dia. Eles fizeram, e a praga terminou.
Kabalisticamente, nunca estamos lendo relatos históricos. A história fala de uma pessoa só, e essa pessoa é você. Cada um de nós é composto de cem partes espirituais, e as cem pessoas que morriam eram as cem partes de uma alma que ninguém acordou.
Michael Berg descreve o dia com um realismo desconfortável. A pessoa abre os olhos e já pensa que está tarde, que tem isso e aquilo para resolver. O dia se enche de decepção e de falta de apreciação, e a alma dela nunca desperta.
Aqui está a mecânica, e ela é bem literal. Cada momento verdadeiro de apreciação desperta um centésimo da sua alma. Quanto mais cedo você chegar aos cem, mais cedo a alma está viva, e mais horas do dia sobram para receber.
O corpo acorda de várias formas: o alarme, o café, um banho frio. A alma tem um caminho só.
O primeiro dos três kabalistas é o autor do Sefer HaChinuch, um livro do século XIII. E o que ele abre é o ponto em que quase todo mundo erra.
Ou seja, os cem momentos não são só pelo que você já tem. Metade deles é pelo que você ainda não tem e o Criador já separou para você. A Essência do Criador é dar, e por isso tudo o que falta em você já está pronto, esperando uma passagem.
A apreciação é essa passagem. Michael Berg a chama de interruptor, e diz que ela tem que ser verdadeira, completa, real. Palavra dita sem consciência não liga nada.
Ele conta uma conversa da noite anterior. Alguém preocupado em encontrar a alma gêmea. E a pergunta que ele devolve é sobre certeza, em partes: a Luz do Criador existe, ela me envolve, ela deseja fazer o bem, e neste caso ela quer que eu encontre essa pessoa. Enquanto qualquer parte dessa consciência estiver embaralhada, nada se manifesta.
E aí ele traz uma coisa que ouviu de uma enfermeira de cuidados paliativos, num podcast que gravou com Monica Berg. Um dos maiores lamentos de quem está deixando este mundo é sentir falta de ter desejo pelas coisas.
Volte então para a pessoa preocupada com a alma gêmea, e a pergunta muda de lugar. Você aprecia sequer ter esse desejo? Ele ainda pulsa em você, e um dia ele não vai mais estar aí.
O segundo kabalista é Rav Ashlag, e o segredo dele desmonta uma ideia que quase todo estudante carrega: a de que o trabalho espiritual serve para trazer bênçãos. Michael Berg responde a isso com uma palavra só. Errado.
Ele usa exemplos deliberadamente comuns: um bife que você gosta, o dinheiro que está na sua conta. O prazer não existe por si. Ele existe para que você reconheça a Fonte dentro dele e fique mais perto dela. Isso é devekut, unificação.
E daí vem a parte severa. A bênção usada assim cresce, porque o Criador vê alguém se aproximando e quer mais aproximação. A bênção que você recebe sem ligar à Fonte perde a razão de existir, e o que não tem razão de existir diminui.
O terceiro kabalista é o Recanati, e talvez seja o mais profundo dos três. Ele parte do ma'aser: a pessoa tem cem e dá dez ao Levi, o Levi tem dez e dá um ao Kohen. Cem, dez, um. E essa escada não é sobre dinheiro.
É o desenho dos três níveis da alma. Os cem momentos de apreciação despertam o Nefesh. O Nefesh separa os dez mais puros e entrega ao Ruach. O Ruach separa o mais poderoso de todos, um só, e entrega à Neshamá. E só a Neshamá se conecta diretamente à Luz do Criador.
Agora o detalhe que dói. Michael Berg dá o exemplo de quem teve noventa momentos hoje. Noventa é quase tudo, e mesmo assim a corrente não fecha: o Nefesh acorda pela metade, o Ruach não recebe o bastante para acordar a Neshamá, e a Neshamá não alcança o Infinito.
No meio da palestra ele para e pergunta para a sala: por que você acordou hoje de manhã? As respostas vêm fáceis. Para cuidar da família, para fazer uma conexão, para revelar Luz. E ele responde com um não seco.
Na porção desta semana o Criador deixa isso sem margem. Estou pedindo apenas uma coisa a você. Nada do que fazemos, nem física nem espiritualmente, pesa tanto quanto garantir os cem momentos de apreciação de hoje.
E isso não termina em você. O Sefer HaChinuch ensina que a única oração que se deve fazer pelo mundo é que todos venham a conhecer este segredo.
Ele fecha pedindo que a gente assista de novo. Não porque a palestra seja bonita, e sim porque não se estuda isto para ter ouvido uma boa aula. Estuda-se para mudar o jeito de viver.
Se eu contasse de verdade hoje, em quantos eu pararia? E o que deixou de chegar até mim por causa dos que faltaram?
Palestra original: Michael Berg, Shabat de Ekev, 16 de agosto de 2025, Kabbalah Centre de Los Angeles. Síntese e adaptação por Thiago Moshe · Insights Kabalísticos.
As falas entre aspas são paráfrases próximas da tradução em português da palestra, e não transcrição literal. Os três kabalistas citados por Michael Berg são o autor do Sefer HaChinuch (século XIII), Rav Yehuda Ashlag e o Recanati. A história do Rei David e da praga vem do Talmud, conforme citada por ele.
A referência de capítulo e verso (Devarim 10:12) foi acrescentada por nós. Na palestra, Michael Berg cita apenas "um verso desta leitura".