Insights Kabalísticos por Thiago Moshe
בְּרֵאשִׁית
Shabat BeresheetNovo Ciclo da Torah

O Que Foi Criado?

Michael Berg e o segredo
de duas palavras: Beresheet bará

BERESHEET · eu sou potencial esperando para se manifestar

Esta página reúne, em forma de síntese, a palestra de Michael Berg no Shabat Beresheet, a primeira leitura do ano. Ele parte de duas palavras da Torah e de uma pergunta do Ramban para chegar a outra, bem mais pessoal: o que eu sou?

A travessia da Criação · Beresheet bará

Ayin e Yesh

אַיִן
Ayin
o nada
→
יֵשׁ
Yesh
o algo
Uma só palavra hebraica para essa travessia · בָּרָא bará

O hebraico tem uma única palavra para o processo de ir do Ayin ao Yesh: bará. Quando a Torah abre dizendo que algo foi criado, é dessa passagem que ela fala, e a pergunta do Ramban é o que, exatamente, atravessou.

Oito insights · Beresheet
01

O Shabat que constrói a ponte

Este é o primeiro Shabat do ano e a primeira leitura da Torah do novo ciclo, e os kabalistas falam da sua importância em muitos níveis. O primeiro deles tem a ver com Elul e Tishrei. Toda a Luz que despertamos e revelamos nesses meses não existia apenas para nos dar um estado espiritual elevado enquanto durassem: o propósito era manifestar grande Luz e bênçãos ao longo do ano.

É isso que este Shabat faz. Ele nos dá uma ponte, a capacidade de levar para dentro do ano toda a Luz que despertamos e todo o trabalho que fizemos até agora. E, porque estamos começando, também é um tempo de aprofundar a nossa consciência e a nossa compreensão.

“Uma ideia bonita e empolgante, ainda que um pouco profunda: um novo nível de consciência que transforma por completo a forma como vivemos.” Michael Berg, em síntese
02

A pergunta do Ramban: o que foi criado?

A Torah abre com duas palavras: Beresheet bará, “no princípio foi criado”. A terceira é Deus (Elohim), mas Michael Berg pede que a atenção fique nas duas primeiras, e sobretudo na segunda. O que, exatamente, foi criado? É a pergunta que o Ramban (Rav Moshe ben Nachman, também conhecido como Nachmânides, 1194-1270) faz sobre elas.

Quem lê o livro de Beresheet corre o risco de achar que foi criado tudo isto que vemos: os céus, a terra, os animais. Há alguma verdade nisso, mas essa não é a realidade fundamental da Criação.

Michael Berg faz uma observação que vale guardar: muitas vezes dá para perceber que um grande kabalista está entregando um enorme segredo pelas palavras que escolhe antes da revelação. O Ramban começa com nachon varur, “é absolutamente certo e completamente claro”, e só então diz o que veio a ser.

Tudo o que é de natureza física, e até o que é de natureza espiritual, veio do nada. Havia Ayin, o nada, e depois houve Yesh, o algo. É a primeira coisa que precisamos aceitar, e nem a ciência discorda: houve um tempo em que tempo e espaço não existiam, e então isto veio a ser. Para quem não é espiritual, talvez fosse difícil aceitar o ensinamento do Ramban há cerca de mil anos, mas hoje, lembra Michael Berg, basta ler um pouco de ciência. É um ensinamento kabalístico do Zohar e do Ari que a ciência de hoje também ensina.

E a língua antiga, o hebraico, tem uma única palavra para essa passagem do Ayin ao Yesh, do nada ao algo: bará.

03

Só uma coisa foi criada

Então o que o bará criou? Segundo o Ramban, algo que é quase nada, um koach hadak, uma força sutil. Ela é pequena não no espaço nem no tempo, mas na essência, até na essência física. Não é uma manifestação nem uma existência: é energia potencial, pronta para assumir qualquer forma nova e passar de potencial a atual.

Os gregos, em suas tradições filosóficas, chamavam essa energia de yuli. A Torah, nesta porção, a chama de Tohu. Michael Berg lembra que o Rav Ashlag também se refere com frequência a esse ensinamento do Ramban nas Dez Emanações Luminosas.

E o Ramban sublinha: depois dessa energia, nada novo foi criado. Tudo o que veio depois, toda a Criação e toda a humanidade, foi formado a partir do yuli e, esperamos, aperfeiçoado. O resto são manifestações diferentes dele.

“A Criação é uma coisa só: a criação desse yuli, uma energia potencial cujo propósito é se manifestar.” Michael Berg, em síntese

Tohu quer dizer algo difícil de apreender. O Infinito, sabemos, é impossível de apreender. Muito difícil é o passo logo depois dele, o yuli, e é nele que precisamos nos esforçar para envolver a mente.

04

O que chamamos de realidade não é a Criação

Pergunte à maioria das pessoas o que é a Criação e a resposta virá de olhar pela janela: árvores, terra, céu, gente, eu mesmo. Foi tudo criado, certo? Não. O que chamamos de metziut, a realidade, não é a Criação. A essência da Criação é o yuli: potencial, e não atual. Nada além dessa energia potencial foi criado.

Isso muda a forma como nos olhamos. Se alguém pergunta “o que eu sou?”, quase todos respondemos com uma lista: sou um ser humano, tenho certa idade, aprendi certas coisas, faço certas coisas. E, como sou espiritual, quero ficar ainda melhor amanhã e aprender mais. Mas esse pensamento, “eu existo, você existe, este mundo existe”, é completamente falso e, como dizem os kabalistas, é o que se chama de idolatria: um mal-entendido total da Criação e, por isso, de tudo o que veio depois.

O que foi atualizado é outra coisa, o que chamamos de Mundo da Formação (Yetzirah) e Mundo da Ação (Asiyah). A Criação, o Mundo da Criação (Briyah) ou bará, é só potencial. Por isso, diz Michael Berg, isto não é só uma discussão filosófica sobre o que é a Criação: é uma consciência com a qual precisamos viver, porque o pensamento “eu existo” nos desconecta da Luz do Criador.

“O mundo não existe. Eu não existo. A essência do mundo e a minha essência é yuli, energia potencial ainda não manifestada.” Michael Berg, em síntese
05

Avraham e a casa em chamas

Segundo o Midrash, o Patriarca Avraham chegou a conhecer o Criador por um caminho assim. Ele olhou para o Sol, viu o quanto era poderoso, dando luz o dia inteiro, e pensou: talvez seja a fonte de tudo. Veio a noite, e ele viu a Lua e as estrelas, que dão luz até na escuridão, e pensou de novo: talvez seja isto. Avraham passa, assim, pelo erro que todos ainda cometemos, o de achar que as coisas existem, têm essência e têm poder, até ver que elas se vão.

A impermanência de toda a ilusão que chamamos de Criação é o maior caminho para compreender a verdade sobre a Criação. Avraham chegou a uma única conclusão, bira doleket: este mundo é uma casa em chamas, um fogo que queima.

Olhe para uma vela. Pergunte a uma criança se aquele fogo existe e ela dirá que sim, está olhando para ele. Para nós também, se não pensarmos demais. Mas a chama que você vê neste segundo não existe no seguinte: o fogo consome o combustível, o óleo ou a madeira, e o que você vê é um processo, e não uma existência. Com a chama é fácil perceber, porque dois segundos de reflexão bastam, e o mesmo vale para toda a Criação.

A ciência diz o mesmo: tudo está em processo de entropia, caminhando para a inexistência. Cada montanha, cada árvore, cada ser humano, os oceanos, os céus, até a consciência. Se algo só parece existir numa linha de tempo de 50, 100 ou 2.000 anos, pergunta Michael Berg, será que existe de verdade, se não é permanente? A essência deste mundo é processo, e não existência: o de passar de potencial a atual.

“A realidade é um processo, e não uma existência.” Michael Berg, em síntese
06

Só se conecta ao Infinito quem se vê em processo

Antes de haver tempo e espaço, havia e há o Mundo Infinito (Ein Sof), sem limites, que não conseguimos compreender enquanto acreditamos na ilusão de tempo e espaço, mas que de algum modo distante sentimos. O primeiro ensinamento das Dez Emanações Luminosas é que o propósito da Criação é um só: manifestar a Luz Infinita por meio da humanidade, neste mundo.

Nas coisas espirituais, porém, só nos conectamos àquilo com que temos similaridade de forma, ou seja, a mesma consciência. Se a minha tarefa é manifestar o Mundo Infinito, preciso estar conectado a ele. Se penso, falsamente, que eu existo e que este mundo existe, esse pensamento me desconecta, porque me prende a um mundo ilusório que não faz parte do Infinito.

O único pensamento que nos conecta é este: eu não existo, o mundo não existe, eu estou em processo, o mundo está em processo, e a essência da minha realidade é energia potencial esperando para se manifestar. Como o Rav Berg sempre lembrava, a consciência é tudo. Quem pensa de outra forma fica desconectado da Criação, da Luz do Criador e de si mesmo.

“Eu sou energia potencial esperando para se manifestar. Essa é a verdade sobre quem eu sou e sobre quem você é.” Michael Berg, em síntese
07

O que nos faz negar a morte

Michael Berg lembra um livro famoso, A Negação da Morte, cuja tese é que quase tudo o que as pessoas fazem (trabalhar muito, doar, tornar-se espiritual) vem do esforço de não encarar a morte, ou de lutar contra ela. Existem bases científicas e psicológicas para essa ideia.

Por que negamos? Porque temos uma intuição profunda e verdadeira de que estamos conectados ao Infinito. Daí o paradoxo: sentimos que há em nós algo infinito, atemporal, fora dos limites da morte, do fim e da entropia, e ao mesmo tempo vemos que as pessoas ao nosso redor, que também devem ter essa conexão, morrem e terminam. O nosso cérebro briga com essas duas realidades.

O caminho é uma mudança de consciência. Fomos criados para nos conectar ao Infinito, e isso só acontece quando deixamos de nos ver como uma realidade que existe e passamos a nos ver como potencial ainda não manifestado. O processo é infinito, até que voltemos ao Infinito. E, se alguém não o completa numa vida, volta na seguinte: fazemos parte do processo infinito.

08

Acordar como yuli

Pense em como você acordou hoje. Como se viu? O grande erro da maioria de nós é acordar num mundo que existe, dentro de um ser que existe, e então decidir revelar um pouco de Luz. Isso nos desconecta do Infinito, porque não participamos do processo criativo vivendo fora da realidade. O único pensamento verdadeiro é outro: não sou uma existência, sou uma força potencial, um yuli, e o meu propósito de hoje é manifestar nova Luz do Infinito neste mundo.

Feito isso, volto a onde? Ao entendimento de que estou em processo. É o que o Rav Berg, e também o Zohar, o Ari e o Rav Ashlag, chamam de mati velo mati: estar lá e não estar lá.

Nada do que já manifestei me define, nem as minhas conquistas, nem os meus fracassos, nem a minha sabedoria. Até o pensamento “já sou uma boa pessoa” faz parte da lista, e a lista nos desconecta. Tudo o que se manifesta já está confinado no tempo e no espaço, como um bolo assado, que tem os seus limites. O único ilimitado em nós é o processo.

Isso muda a forma como vivemos. Se tudo o que sou é energia potencial esperando para se manifestar, é melhor começar a manifestar. Por que nos permitimos fazer 60%, 80% ou 90% e descansar? Porque olhamos para o que já fizemos. Mas hoje eu não continuo de onde estava ontem, nem estou somando perfeição a algo que existe.

Há ainda um presente escondido aqui. Quem entende Tohu percebe que não pode saber o que fará hoje nem na semana que vem, porque, se fosse o eu limitado fazendo, haveria um plano dentro da sua sabedoria e dos seus poderes. Mas isso não é o que eu sou. Não há limite para o que o meu potencial não manifestado pode se tornar. Pensar em si de forma limitada é ter comprado a falsidade da existência.

“Quando você vive e manifesta com essa consciência, você faz parte da Criação, e a sua alma faz parte do propósito dela.” Michael Berg, em síntese
A Prática · acordar como yuli

Seis passos para viver como potencial

1
Neste Shabat, medite. Ouvir a palestra não basta. Reserve um tempo para pensar nesta ideia e lutar por ela, porque é isso que a transforma em consciência.
2
Ao acordar, pergunte: o que sou eu? Observe a lista que aparece (nome, idade, o que sei, o que faço) e não responda com ela.
3
Solte a lista. As conquistas, os fracassos, a sabedoria, até o “já sou uma boa pessoa”. Nada disso é o que você é.
בְּרֵאשִׁית בָּרָא Beresheet bará: “no princípio foi criado”
4
Diga a verdade sobre você: sou yuli, energia potencial esperando para se manifestar.
5
Escolha o que vai manifestar hoje. Que Luz do Infinito precisa entrar neste mundo por meio de você? Faça disso o propósito do seu dia e não se acomode com o “já fiz tanto”.
6
Volte ao processo. Ao terminar, lembre que também o que você manifestou já ficou limitado e que você continua em processo. Amanhã, acorde yuli de novo.

Se eu não sou a minha lista, e sim energia potencial esperando para se manifestar, o que eu preciso começar a manifestar hoje?

Palestra original: Michael Berg, Shabat Beresheet (2 de outubro de 2021), Kabbalah Centre. Síntese e adaptação por Thiago Moshe · Insights Kabalísticos.

O ensinamento sobre bará, yuli e Tohu é do Ramban, trazido por Michael Berg. A história de Avraham vem do Midrash, contada na palestra. As frases entre aspas são paráfrases em síntese, e não transcrição literal.

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Com amor e Luz,
Thiago Moshe